Médico reformado que Pureza usou como testemunha é do BE
O coordenador do BE processou o deputado do Chega por publicação difamatória. Diz que lhe causou "sofrimento psíquico" e que teve de tomar medicação após consulta com o médico de família. Foi também o número três, quatro e cinco em listas para legislativas entre 2009 e 2019.
O coordenador do Bloco de Esquerda José Manuel Pureza moveu uma queixa por difamação contra Pedro Frazão, deputado do Chega. Motivado por uma publicação em que insinuava ter cometido crimes de assédio sexual, o bloquista alegou durante o julgamento que viveu “sofrimento psíquico e físico muito forte”, forçando-o a recorrer ao médico de família e a medicação. Como a SÁBADO noticiou esta quinta-feira, a defesa de Pedro Frazão questionou a veracidade desse testemunho: alegou que o médico de família referido no processo aposentou-se em 2020, além de não existir qualquer receita médica associada ao dia da alegada consulta, e exigiu saber se o profissional de saúde tinha filiação partidária. Pureza disse em tribunal que "é completamente alheio às opções políticas do seu médico de família", lê-se no despacho, a que a SÁBADO teve acesso - contudo, em todas as legislativas entre 2009 e 2019, o médico foi o seu número três, quatro e cinco nas listas legislativas do BE por Coimbra.
Durante mais de dez anos, António Manuel dos Santos Rodrigues aparece nas listas legislativas do BE pelo círculo de Coimbra, sempre liderada por José Manuel Pureza. Em 2005 e 2009, foi em quarto na lista; em 2011 e 2015, subiu para terceiro; e em 2019, desceu para quinto.
O assunto da preferência política do médico foi assunto durante o julgamento. Pedro Frazão requereu ainda que a junção ao processo do que "sustentou ser comprovativo da filiação da referida testemunha no Bloco de Esquerda e candidato por Coimbra". Em resposta, Pureza afirmou estar "alheio às opções políticas" do seu médico de família: "O assistente é completamente alheio às opções políticas do seu médico de família o qual lhe foi atribuído pelo Serviço Nacional de Saúde, no ano de 2012, em função da sua área de residência." E acrescentou que os pedidos do deputado do Chega são "manifestamente dilatórios": "o arguido tem vindo a recorrer a expedientes dilatórios que se traduziram em adiamentos e mais demoras no decurso dos trabalhos da fase de julgamento." O Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa acabou por considerar que a filiação política do médico "não se considera necessário à descoberta da verdade nem à boa decisão da causa".
No centro do litígio está uma publicação de 18 de maio de 2021. Nesse dia, segundo a acusação do Ministério Público, Pedro Frazão partilhou um vídeo de "uma jovem militante/simpatizante do BE, em que esta refere, em súmula, ter sido vítima de atos sexuais não consentidos por parte de indivíduo ligado ao referido partido". Na legenda do vídeo, o deputado do Chega escreveu: "Já não há Pureza no Bloco de Asquereza? #MeToo (...) Quem será o nojento de 62 anos?", lê-se. Na publicação, o deputado do Chega publicou a palavra pureza com "p" maiúsculo, à semelhança do coordenador do BE, e reforçou a idade, idêntica à do bloquista na altura.