As ligações do PS na junta mais central de Lisboa
Candidato pelo PS à Assembleia da República é um dos elementos principais do processo de contratação de dezenas de empresas de militantes socialistas pela junta de Santa Maria Maior.
Nota: artigo de investigação originalmente publicado em janeiro de 2022
O email foi enviado às 21h33 de 17 de setembro de 2021, a nove dias das Autárquicas de 26 de setembro. Destinatário: a conta de Gmail da concelhia do Partido Socialista de Mafra. O assunto: "Flyer CMM e AMM." O remetente: Dimas Pestana, através de uma conta de email da empresa Diálogo Emergente. Em anexo estavam dois panfletos da candidatura "Somos Todos Mafra" onde se incluíam os rostos dos candidatos do PS à Câmara Municipal de Mafra (CMM) e à Assembleia Municipal de Mafra (AMM).
Parecia uma transação normal entre um partido e uma empresa que tinha (e tem) como objeto social (entre outros) "consultoria, conceção e produção de material publicitário", mas havia pormenores a salientar: a empresa não tinha histórico no mercado - fora criada meses antes - e tinha como sócios dois socialistas de longa data: Rui Pedro Nascimento e Duarte Moral, ex-assessor de António Costa no governo e na Câmara de Lisboa.
Esse email, a que SÁBADO teve acesso, é a ponta do icebergue de uma inusitada relação entre o PS de Mafra e algumas das figuras do PS nacional com epicentro numa junta de freguesia no coração de Lisboa e com um militante desconhecido do grande público como peça central: Sérgio Santos, candidato a deputado nas eleições de domingo, dia 30.
É a terceira vez consecutiva que Sérgio Santos, 46 anos, aparece numas Legislativas nas listas do PS, um sinal da sua influência no círculo de Lisboa. Em 2015, era 29º na lista, em 2019 era 32º e agora é o 31º. Nunca foi eleito para o parlamento, mas fez o seu caminho em Mafra, onde é vereador da câmara municipal desde 2013. Nestas autárquicas, chegou a ser simultaneamente candidato em dois municípios (Câmara de Mafra e Assembleia de Freguesia de Santa Maria Maior), o que é irregular. "Erro meu, não tinha essa ideia", diz.
O caminho de Sérgio Santos na política começou no PSD de Mafra, nos anos 90. Chegou a ser membro da Comissão Política, mas no fim de 2008 filiou-se no PS. Em 2009 era já o candidato dos socialistas à junta da Malveira (Mafra). Rapidamente dominou a concelhia, onde foi presidente até 2020. Foi também o diretor da campanha do PS em Mafra em 2013, 2017 e 2021 - os resultados do partido foram sempre a descer (26%, 23% e 19%, respetivamente), mas a sua influência mantém-se intocável.
Se em Mafra o seu percurso está arredado do poder (é apenas vereador da oposição numa câmara do PSD), em Santa Maria Maior é diferente, uma vez que o PS preside à junta desde 2013. Não é a maior freguesia, mas é o coração de Lisboa - abarca Alfama, Mouraria, Baixa, Terreiro do Paço e Praça do Município.
Nesta junta instalou-se uma rede de candidatos autárquicos de Mafra, além de dezenas de empresas que têm sede em Mafra, ou cujos sócios são militantes do PS de Mafra. Sérgio Santos relativiza ("Devemos ser a junta com mais diversidade de contratações") e nega que seja uma forma de manter poder em Mafra: "Não, porque não vou ter mais cargos políticos."
Além de Sérgio Santos (que lidera o Gabinete de Manutenção, Património e Compras), trabalham na junta Renato Alves dos Santos (candidato à câmara), o irmão deste (Dário) e mais sete candidatos mafrenses: Rita Pinto, Fernando Fernandes, Ana Ivo Silva, Nuno Sousa, Inês Lopes, António Loretti e Leila Alexandre.
Ainda assim, alguns destes nomes são de Lisboa. Porquê? "Porque em Mafra existe muito défice de pessoas, temos dificuldade em arranjar pessoas para as listas, convidei-os para encher uma lista", alega Sérgio Santos. Para isso era necessário ir buscar fadistas a Alfama (António Loretti). "Não, o ‘Tony’ Loretti não é fadista. Organiza uns eventos de fado. Antes de 2013 o PS não apresentava candidatos em todas as freguesias. Ser o maior partido do País e não ter listas num concelho a 20 km de Lisboa… Não havia pessoas que quisessem fazer parte das listas e tivemos de ir buscar pessoas amigas." Mas a ver pelos resultados, não está a funcionar a estratégia. "Pois não."
Um segredo chamado Rute Reimão
O presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho, é um ex-deputado do PS (1995-2019) e membro da Comissão Política Nacional do PS. O presidente da assembleia de freguesia é Sérgio Cintra, presidente do PS Lisboa, diretor da campanha de Fernando Medina nestas autárquicas.
Miguel Coelho diz que ter 19 empresas de Mafra contratadas pela sua junta "não parece extraordinário; temos contratos com várias centenas de empresas". Sobre Sérgio Santos, diz que foi convidado "porque confiava nas suas capacidades operacionais". E sobre tanta gente de Mafra a trabalhar na junta "só vejo anormalidade se forem pessoas incompetentes".
Na sua junta está também a mulher do seu amigo Duarte Moral, o sócio da Diálogo Emergente. É um histórico dos gabinetes e há mais de 20 anos que pertence ao círculo próximo de quem manda na câmara de Lisboa e no partido. Foi assessor de António Costa em 1999-2000 (quando era ministro da Justiça), em 2005/07 (ministro da Administração Interna) e em 2011/14 (presidente da Câmara Municipal de Lisboa).
Duarte Moral teve as mesmas funções no grupo parlamentar do PS (2007-09 e 2015-17), onde também estava Rui Pedro Nascimento, seu sócio da Diálogo Emergente. Em 2010, foi nomeado adjunto do secretário de Estado da Defesa na altura (Marcos Perestrello, cujo irmão Miguel também foi trabalhar para a freguesia de Santa Maria Maior).
A mulher, Rute Reimão, está na mesma junta desde 2014 como assessora cultural. O seu nome não consta no portal de contratos públicos nem no Diário da República, mas há quatro ajustes diretos (€72.000) desde 2020 com a sua empresa Cidade Etérea para "implementação e desenvolvimento de atividades artísticas na área social e cultural".
Miguel Coelho reconhece que é amigo de Duarte Moral "há não sei quantos anos" e irritou-se com a pergunta se foi ele que lhe sugeriu a contratação da mulher. "Oiça, a mim ninguém me indica nada. Não lhe aceito essa sugestão. Se quer falar comigo, fala comigo corretamente. Contratei-a porque ela tem um currículo respeitado. Está como colaboradora da junta. Se não me engano ela é uma empresa a título individual. Ela é a empresa."
Porque é que não a contratou a ela, mas à empresa? "Porque ela tinha a empresa constituída e preferiu ser contratada assim." Mas a empresa é de 2019 e começou a trabalhar na junta em 2014. "Não sei, temos de mandar verificar, não lhe sei responder." No dia seguinte, Miguel Coelho disse-nos que no início Rute Reimão "trabalhou para a junta através de uma empresa que a junta contratara". Qual empresa? "Rute Reimão não autoriza que eu diga por causa da proteção de dados." O presidente da junta não pode dizer o nome de uma empresa que contratou? "Não posso. Se quiser, coloque as perguntas por escrito." Não houve resposta aos nosso emails, incluindo de Rute Reimão.
Quanto a Dimas Pestana, autor do email em nome da Diálogo Emergente, também ele foi assessor do gabinete de António Costa na Câmara de Lisboa. Saiu em 2016, já com Fernando Medina na presidência, para ser assessor no grupo parlamentar do PS, onde ficou até 2018.
O irmão, a mulher e o estore de Marcos Perestrello
Dali saiu para presidente do conselho de administração da WeMob, a empresa municipal de mobilidade de Almada liderada por Inês de Medeiros (PS) - nessa altura também entrou na WeMob Rui Pedro Nascimento, sócio da Diálogo Emergente. E foi também contratada (€9.840) a Cidade Etérea, a unipessoal de Rute Reimão. Dimas Pestana ficou em Almada até 2020 e, segundo o seu LinkedIn, tornou-se "consultor". Apareceu agora a enviar flyers para uma campanha do PS em Mafra através de uma empresa privada.
Só nessa concelhia, a máquina do PS gastou 27 mil euros em material de propaganda nas Autárquicas, segundo relatório nacional do partido a que a SÁBADO teve acesso. Sérgio Santos diz que a concelhia tinha "um orçamento de cerca de €30 mil e gastámos cerca de €40 mil". Acrescenta que a concelhia gastou "€12 mil" com a Diálogo Emergente ("Para a conceção da campanha, uma sondagem e os flyers"), de que devem "€9 mil e qualquer coisa". Como vai pagar? "É uma questão de o Partido Socialista, da sede [Lisboa] pagar, e como. Optámos por ficar a dever a esta." Isso explica, diz, porque é que a contrataram: "Era alguém do Partido Socialista para criar a imagem e se no fim o dinheiro não chegasse poderíamos demorar mais tempo a pagar." Sérgio Santos acrescenta que foram gastos "cerca de €12 mil com a B&R." Esta empresa (ver infografia) é também de militantes do PS e tem vários contratos com Santa Maria Maior.
Duarte Moral remete explicações sobre o contrato da mulher para a junta. Sobre a sua empresa, diz à SÁBADO que "trabalhamos na área da comunicação e apresentámos os nossos serviços a uma série de concelhias do PS com vista às campanhas autárquicas e Mafra contratou-nos". Mais alguma? "Houve outras, no distrito de Portalegre, designadamente Marvão, Fronteira, talvez haja mais alguma no Alentejo. Sou sócio, mas não participei muito ativamente nessas campanhas."
Quem também trabalha na junta de Santa Maria Maior é o irmão de Marcos Perestrello. Este último é deputado e está em lugar elegível (11º) nas listas de Lisboa do PS. É muito próximo de António Costa e há notícias que o dão como próximo líder parlamentar do PS. O seu irmão, Miguel Perestrello, teve dois ajustes diretos de assessoria em 2015 e 2017 (€14.500) na freguesia de Santa Maria Maior e dali saltou, por nomeação do Governo de António Costa, para vogal da direção da Movijovem. Antes tinha estado no Turismo de Portugal, entre 2005 e 2013.
O irmão e a mulher de Marcos Perestrello têm, aliás, feito carreira à sombra de nomeações governamentais de executivos socialistas, especialmente de António Costa. Sara Perestrello de Vasconcellos, 48 anos, que é agora chefe de gabinete da ministra da Cultura, é ainda filha de Moisés Gil, diretor-geral da poderosa federação das concelhias do PS na área urbana de Lisboa, a FAUL.
Sérgio Santos diz à SÁBADO que é "amigo e sobretudo camarada de Marcos Perestrello; houve um período em que ele se candidatou [FAUL], apoiei-o em Mafra, e ele ganhou". De quem é mesmo amigo é "do senhor Moisés [Gil]", tanto que este já lhe pediu ajuda para resolver um problema na casa do genro. "O senhor Moisés pediu-me para ir lá mudar uma fita de estore na casa do Marcos Perestrello. Trabalhei nas obras até aos 33 anos com o meu pai, sei de construção. O senhor Moisés, que é muito meu amigo, pode pedir-me, e faço, nada mais do que isso."
Ao telefone de Bruxelas, Marcos Perestrello diz à SÁBADO que não sabe do que estamos a falar. "O meu irmão em Santa Maria Maior? Não sei. É possível, não sei." Sérgio Santos? "Não tenho nenhuma relação." Mudar uma fita de estores lá em casa? "Até pode ter ido, sei que ele há muitos anos trabalhou em alumínios e janelas."
Notícia atualizada às 16h09 com uma alteração do título.