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Congresso do PS. Carneiro 2.0 com o poder na mira e uma "firmeza" indecifrável

Rita Rato Nunes 29 de março de 2026 às 17:20

Socialistas foram a Viseu pedir ao líder reeleito mais exigência para com o Governo, mas não necessariamente um bloqueador. Carneiro prometeu mudança de atitude e foco na construção da alternativa para o País. Quer governar sem concretizar quando e traçou um caminho à lá Seguro.

José Luís Carneiro inaugurou uma nova era da sua relação com o Governo de Luís Montenegro, em Viseu, no seu primeiro congresso como líder do PS, neste fim-de-semana. Vai deixar de enviar cartas ao primeiro-ministro, depois de todas as que escreveu terem ficado sem resposta. Dezenas de socialistas pediram ao líder mais exigência, uma oposição mais aguerrida e concreta - variando apenas nos “decibéis” do tom que aconselharam a adotar com Montenegro. Carneiro prometeu-lhes que a partir de agora terá de ser o PSD a procurá-lo. Comprometeu-se com uma “oposição responsável, construtiva, mas firme”, todavia, esta firmeza deixou mais dúvidas do que respostas, visto que os ataques ao Executivo, no discurso de encerramento, passaram pela constatação de que o Governo não está a governar bem.

Pedro Nuno Santos discursa no 25.º Congresso Nacional do PS em Viseu Lusa

Ainda assim, houve dois aspetos que ficaram mais claros na afinação da estratégia política do secretário-geral do PS. O primeiro foi o foco no posicionamento do partido como a "alternativa para o País”. José Luís Carneiro quis vincar que – independentemente do crescimento eleitoral do Chega – o PS é o único partido preparado para governar. E o segundo aspeto foi a clarificação da ambição de regressar ao poder, esplanada na apresentação de prioridades que quase poderiam ser um programa de governo em várias áreas da saúde, à justiça, à habitação, e que “culminará na nossa vitória nas próximas legislativas”, afirmou no discurso final. Por clarificar ficou qual o horizontal temporal destas eleições para Carneiro.

Entre o que disse e as entrelinhas do que disse não se vislumbrou qualquer vontade de Carneiro em perturbar a governação de Montenegro (que tem mais três anos e meio de mandato pela frente). O socialista continuou a garantir disponibilidade para auxiliar o Governo em matérias estruturais, nomeadamente na aprovação de um hipotético orçamento retificativo por causa dos danos dos temporais do início do ano. E mostrou-se mais interessado em percorrer o caminho (lento e alvo de descrença no início) que levou António José Seguro à Presidência da República.

Quis falar sobre temas, “reformas” para o País; apresentar o PS como um partido aberto (vai recuperar os “estados gerais” de Guterres para elaborar propostas e abrir este espaço à sociedade civil – de notar que um dos “obreiros” deste estados foi precisamente o jovem António José Seguro). Quis passar a ideia de um partido moderno e jovem (no congresso houve direito a speed dates com dirigentes e envelopes com frases motivacionais).

O secretário-geral foi ainda buscar várias das mensagens de Seguro: colocar os jovens no centro das preocupações (sem esquecer os mais velhos, o eleitorado-tipo), ter como prioridades a saúde e a desigualdade salarial entre homens e mulheres, a economia e o tecido empresarial. Introduziu palavras no discurso como “esperança” e concentrou-se no futuro, estabelecendo que seria possível regressar ao poder com a ajuda de todos “os humanistas”, “com coragem, determinação e serenidade” (tudo palavras do campo semântico da campanha de Seguro). Carneiro fez ainda uma referência a que este caminho pudesse conduzir o partido ao poder, já que no passado recente os “humanistas” conquistaram “mais de três milhões de votos” – Seguro obteve 3.505.846 votos (66,83%) na segunda volta das eleições Presidenciais contra André Ventura.

Entre os congressistas – que não chegaram a encher o pavilhão multiusos de Viseu – a abertura do PSD para o Chega nomear um juiz para o Tribunal Constitucional marcou dezenas de intervenções e foi ponto de partida para os muitos pedidos de definição da relação entre os socialistas e o Governo. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva foi dos mais enfáticos a pedir “consequências”: “Se o PSD anda de braço dado na rua com a extrema-direita, a escolha é dele. Mas o PS estará do outro lado da rua.”

Por sua vez, o eurodeputado e antigo presidente do Conselho Económico e Social Francisco Assis defendeu: “temos de ter força para fazer os compromissos necessários, mas também as ruturas que se exige.” Entre os compromissos, muitos dos dirigentes que subiram ao palanque do XXV Congresso inscreveram o Orçamento do Estado, “uma coisa de adultos e que exige responsabilidade” apontou o deputado António Mendonça Mendes.

Outros socialistas colocaram o foco na necessidade de definição interna para obter reconhecimento externo. "O PS tem de escolher quais as áreas em que quer entendimentos e em quais quer ser oposição. Não dá para ser em todas. Não dá para ser em nenhuma”, instou o parlamentar e ex-líder da JS, Miguel Costa Matos, primeiro subscritor da moção setorial “Socialismo com Futuro”. Moção que pede à direção “coerência” na sua relação com o Governo e uma “postura mais forte”. Carneiro ouviu-os e prometeu a já citada “firmeza”. Resta saber em que consistirá.

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