Café Bela Cruz demolido para dar lugar a habitação, Câmara do Porto vai avaliar
O projeto para a construção de edifício de habitação foi licenciado no anterior mandato.
O antigo Café Bela Cruz, no Porto, vai ser demolido para dar lugar a um projeto de habitação, preservando alguns elementos, mas a autarquia vai "avaliar o projeto", aprovado pelo anterior executivo.
Em resposta enviada esta terça-feira à Lusa pela Câmara do Porto, o município explica que a obra foi licenciada no anterior mandato e recebeu parecer favorável da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), mas adianta que vai "avaliar o projeto, tendo em vista o seu enquadramento urbanístico na área envolvente".
Trata-se de uma "demolição parcial" do antigo Café Bela Cruz, junto à rotunda do Castelo do Queijo, para dar lugar a um projeto que "prevê a construção de oito fogos", de T2 a T4, com três pisos de edificado e dois pisos de estacionamento subterrâneo, sem espaços comerciais previstos. Na mesma resposta, a autarquia nota que o projeto foi aprovado em 30 de janeiro de 2025 pelo vereador do executivo anterior que tinha o pelouro do Urbanismo, Pedro Baganha, que integrava a equipa liderada pelo independente Rui Moreira.
Fonte do promotor do projeto, o grupo MCaetano, explica que o futuro empreendimento "nasce de um profundo respeito pela memória urbana e arquitetónica daquele lugar singular da cidade", preservando uma fachada "histórica" e um torreão "emblemático". "Mais do que preservar, o projeto procura dialogar com essa memória. A linguagem arquitetónica e a própria conceção do empreendimento foram inspiradas pelos elementos históricos existentes, assumindo-os como referências centrais na construção de uma proposta contemporânea, integrada e respeitadora do caráter simbólico daquele espaço", explica a mesma fonte. Segundo o grupo MCaetano, ali quer-se garantir "que o legado do Bela Cruz permanece vivo na paisagem urbana e na memória do Porto".
As obras de ampliação e alteração vão manter "os alinhamentos e materiais das fachadas", incluindo os elementos em pedra existentes, que estão voltados para a Avenida da Boavista e a Praça de Gonçalves Zarco (rotunda do Castelo do Queijo, junto ao mar), além da torre, ou coruchéu. Ainda segundo a autarquia, o projeto é sujeito a parecer da CCDR-N "em virtude de o imóvel se situar em zonas de proteção de imóveis classificados ou em vias de classificação".
No alvará afixado na frente de obra, pode ler-se que o titular da empreitada é a Patamares da Colina Empreendimentos Imobiliários, com o último despacho de 8 de maio deste ano, já assinado por Catarina Araújo, vice-presidente da autarquia e com o pelouro do Urbanismo, e que integrou o anterior executivo. A área de construção total é de 3.230 metros quadrados, com uma cércea de 12,24 metros. A obra tem um prazo para conclusão fixado em 540 dias, ou perto de ano e meio, num empreendimento que pertence à União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde.
Em 25 de outubro de 2021, o então vereador Pedro Baganha revelou ter recusado a demolição do Café Bela Cruz, por considerar que o espaço faz parte do "imaginário" coletivo da cidade. "É um boato. O que está em curso é um Pedido de Informação Prévia [PIP] para aquele local. Esse Pedido de Informação Prévia, num primeiro momento, chegou com pareceres positivos, mas eu não aceitei a demolição do café", afirmou o vereador, após preocupações da oposição social-democrata.
À data, Pedro Baganha disse que edifício fazia "parte do imaginário coletivo da cidade do Porto" e, por isso, "qualquer nova proposta que para ali" surgisse teria de "preservar o fundamental", o que para si constituía "a fachada para a Avenida da Boavista, o terraço superior e o torreão".
As origens deste espaço remontam a 1952, quando nasceu como café. Em 1989 ganhou outra vida, como clube, e mais tarde, em 2011, teve nova fase, como restaurante e 'wine bar'.
Apesar das décadas de história, e da presença de mais de 70 anos na paisagem junto ao mar da cidade, o Bela Cruz foi também palco de polémicas -- em 2017, um homem ficou com pena de prisão suspensa por incendiar, em 2015, aquele restaurante, do qual era sócio minoritário. Antes, em 2008, um segurança que então trabalhava na discoteca foi baleado, ao separar um desacato.