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Alexandra Leitão. A derrota de uma mulher só

Rita Rato Nunes 13 de outubro de 2025 às 01:29

As palmadinhas nas costas e o discursos motivacionais ("fizeste tudo o que podias") começaram cedo. E a noite nunca passou daqui. "Sou a única responsável pela derrota da coligação", assumiu a candidata socialista, que promete agora "uma oposição rigorosa e firme” a Carlos Moedas.

“Estou tão desiludida”. Às 20h57, T. aguenta a cabeça com o braço esquerdo na cadeira para não descair. Suspira alto. Olha para o grande ecrã de cinema no Auditório da Assembleia Municipal de Lisboa (AML), com a emissão na RTP Notícias: “Vamos perder não vamos? Como é que é possível quererem outra vez o Moedas?”.
Alexandra Leitão assume responsabilidade por derrota em Lisboa Sérgio Lemos/Medialivre
J., sentando na cadeira em frente, uma das sete ocupadas por socialistas num auditório com 700 lugares, vira-se para trás: “E o João Ferreira vai ter um bom resultado…” “Sim, eu conheço muitos socialistas na minha freguesia [São Vicente] que votaram no João Ferreira. Não gostam da Alexandra e preferiram votar nele”. T. abre o grupo de WhatsApp do partido na freguesia, onde começam a circular os primeiros resultados. O ânimo de T. não podia contrastar mais com o entusiasmo que lhe vimos nos dias de campanha por Lisboa. O tom da conversa de início de noite não evoluiu com o passar das horas: o nome de João Ferreira circulou em todas as lamentações, “porque com eles [CDU] era limpinho” (embora Alexandra Leitão se tenha afastado ao máximo desta narrativa). Só não se pode dizer que a descrença foi aumentando, porque a esperança nunca se manifestou. No bar e à porta da AML, na Avenida de Roma, a celebração não existiu. Desde cedo que se antecipava uma derrota “por pouco”. “Já não dá”, lamentava um bloquista. “Os sinais são desanimadores”, retorquia um destacado socialista. Os computadores e os telemóveis refrescavam a página oficial dos resultados enquanto os dados oficiosos circulavam de boca em boca. Quem subia à sala onde Alexandra Leitão e o núcleo duro da candidatura acompanharam a evolução das votações regressava nitidamente desiludido. Vieram os amigos para dar apoio (como o antigo ministro da Educação João Costa e a deputada Edite Estrela), mas faltaram os nomes sonantes, que não se quiseram colar à derrota.
O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, não chegou a aparecer (Rui Tavares e Mariana Mortágua foram os líderes dos partidos da coligação que estiveram ao lado de Alexandra Leitão no discurso de derrota). E outros abandonaram o quartel-general cedo, como o fundador bloquista Francisco Louçã, que às 23h14 estava de saída. Por esta altura, na sala fechada onde Alexandra Leitão se encontrava já se sabia que a derrota era inevitável. Ainda assim, a agora líder da oposição na câmara de Lisboa não aproveitou para escrever o discurso de derrota.  Já passava da meia-noite, quando Alexandra Leitão subiu ao palco do auditório, meio cheio. Foi aplaudida. Mas sem energia. Não trazia um discurso escrito (como anunciou à entrada), e limitou-se a agradecer, a assumir a derrota e a prometer uma oposição "firme e rigorosa". O discurso redondo não foi além disto. "Sou a única responsável pela derrota da coligação", foram as palavras exatas, acompanhadas pela promessa de estar "muito alerta" para que "a cidade não vá ser ainda mais injusta e desigual".  Reconheceu e parabenizou Carlos Moedas pela reeleição, ainda sem saber quantos vereadores cabem à coligação, mas com a certeza de que terão um número idêntico. Atrás de si, deixou uma sala desanimada com vários candidatos que falharam presidências de juntas. Receberam palmadas nas costas e ouviram: "Fizeste tudo o que podias". 
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