Sábado – Pense por si

Alexandre R. Malhado
Alexandre R. Malhado Jornalista
24 de julho de 2025 às 07:00

Sr. primeiro-ministro, tem a certeza de que quer fazer isto?

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Em três meses, Luís Montenegro passou de denunciar "o pendor destrutivo" do Chega para elogiar a responsabilidade de André Ventura. Quando uma figura de Estado legitima um líder populista e radical, a história mostra-nos que quem sai vitorioso não é o incumbente.

Se "a vida muda num instante, num dia normal", como Didion escreveu num documento word para digerir a morte do marido, imaginem o que pode acontecer em três meses. Guerras começam, impérios caem, relações florescem (ou acabam), o fígado regenera-se. No caso de Luís Montenegro, os últimos três meses serviram para recalibrar a sua opinião sobre o Chega. Em abril, dizia ter uma "posição muito clara" desde sempre e descredibilizava Ventura em debate: "Não tem fiabilidade pensamento, comporta-se como um catavento. André Ventura e o Chega têm um pendor destrutivo, virado para falar mal de tudo, está sempre contra tudo e não tem vocação para exercer funções de Governo. E não tem maturidade nem decência." Em julho, o que era claro, agora é algo diferente: o primeiro-ministro salientou que o Chega, o player antisistema, "está a começar a mostrar" maior responsabilidade, como um degenerado a largar vícios. "Nós contamos com a responsabilidade que o Chega pode vir a mostrar – e está agora a começar a mostrar, eu tenho que o dizer. Vamos ver se se mantém, se é sol de pouca dura, se é fogacho ou trajetória consistente", afirmou na Antena 1 em entrevista para o programa Política com Assinatura, da jornalista Natália Carvalho.

Outra frase cliché: a história pode não se repetir, mas rima. E neste caso, é uma rima emparelhada, repetida período da história sim, período da história sim, em diferentes continentes: sempre que uma figura de Estado legitima um líder populista e radical, quem se sai vitorioso não é o incumbente, nem as instituições. Não precisamos de ir muito longe no livro "Como as Democracias Morrem", dos académicos Daniel Ziblatt e Steven Levitsky, para perceber isso. Algures nas primeiras três dezenas de páginas, os professores da Universidade de Harvard falam no risco deste efeito legitimador: "Este tipo de negócio com o diabo beneficia o insurgente, na medida em que alianças propiciam aos outsiders respeitabilidade suficiente para se tornarem competidores legítimos pelo poder."

Ziblatt e Levitsky recorrem a uma série de exemplos para ilustrarem o seu ponto. Na Venezuela, durante a noite de 4 de fevereiro 1992, após a primeira tentativa de golpe de estado (falhada) levada a cabo por Hugo Chávez, então um jovem militar que nunca tinha assumido um cargo público, uma voz veio em sua defesa: o ex-presidente Rafael Caldera, um dos fundadores da democracia venezuelana. Deslumbrado com a popularidade de Chávez junto do povo – e numa tentativa de rejuvenescer a sua própria popularidade para avançar com uma candidatura presidencial –, Caldera legitimou-o publicamente: "É difícil pedir às pessoas que se sacrifiquem pela liberdade e pela democracia quando pensam que a liberdade e a democracia são incapazes de lhes dar de comer, de impedir o aumento astronómico do custo de subsistência, ou de pôr termo de acabar definitivamente com o terrível flagelo da corrupção que, aos que, aos olhos do mundo inteiro, está a corroer as instituições da Venezuela a cada dia que passa."

Em julho de 2025, houve vários momentos de legitimação verbal de Luís Montenegro ao Chega. Imbuído pelo espírito do novo realismo político, aquele que confronta a realidade "como ela realmente é" e não como as elites as constroem, quebrando tabus e o politicamente correto, como descrevem os académicos Bram Prins e Sawitri Saharso, o primeiro-ministro decidiu justificar o "consenso alargado" com o Chega em determinadas matérias porque… o projeto liderado por André Ventura é "alternativa futura de Governo", afirmou numa conferência promovida pela SIC Notícias. Podia ter usado outras palavras, como "partidos da oposição", a que já recorreu no passado, mas escolheu estas – e aqui, a força das palavras conta. Luís Montenegro disse-o porque quis.

A semântica de Luís Montenegro também conta. Dada a nova composição da Assembleia da República, é absolutamente natural o entendimento parlamentar entre a AD e o Chega para várias matérias. Menos natural é a permissividade do Governo com a ambiguidade da existência (ou não) de um acordo. No debate do Estado da Nação, de forma cínica e sem qualquer urgência, o primeiro-ministro deixou-se ser desmentido por Ventura. Nesse embate parlamentar, o secretário-geral do PS José Luís Carneiro perguntou a Luís Montenegro se havia acordo; este negou; e Ventura reafirmou a existência de "um acordo" (para mais tarde trocar a palavra para "entendimento", sinónimo que remete para um grau de compromisso diferente). À espera de poder ser beneficiado eleitoralmente com este jogo semântico – que na verdade serviu apenas para confundir os portugueses –, Luís Montenegro transformou o "não em não" numa outra coisa qualquer que ainda não sabemos bem.

Exemplos destes não faltam no século passado, desde Adolf Hitler na Alemanha ou Hugo Chávez na Venezuela, Getúlio Vargas no Brasil ou Alberto Fujimori no Peru. Um pecado original onde figuras respeitadas pelo sistema, membros da elite política, aproximam os populistas radicais à responsabilidade do poder, na esperança de os conter, mas acabando por os legitimar aos olhos do eleitor comum, sem darem conta. É "uma mistura letal de ambição" que acaba por ceder as chaves do poder ao autocratas em formação, como Ziblatt e Levitsky salientam. Curiosamente Ziblatt, num estudo que fez com o académico português Vicente Valentim e Elias Dinas, estudou de que maneira os políticos mainstream contribuem para a erosão das normas democráticas. Nessa perspetiva de normalização, os académicos descobriram que as bandeiras e a retórica da direita radical é mais legitimada quando mimetizada pelos partidos de centro-direita, do que pelos próprios populistas. Ou seja, nessa demanda dos partidos radicais em alargar a janela de Overton, do que é socialmente aceite, os partidos do centro têm um papel fundamental.

Senhor primeiro-ministro, tem a certeza de que quer fazer isto?

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