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João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
24 de agosto de 2023 às 07:11

O desvario assassino de Putin

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Edição de 5 a 11 de maio

A opinião de João Carlos Barradas acerca da morte de Yevgeny Prigozhin, o líder do grupo Wagner.

A Putin falta-lhe algo da frieza assassina de Estaline nos seus anos de glória e sobram-lhe raivas de vingança desvairada que o levam a actos de violência contraproducentes.

Ordenar a execução da liderança do Grupo Wagner precisamente durante a cimeira dos BRICS em Joanesburgo é uma insensatez capaz de aterrorizar aliados e súbditos.  

Putin surge como o ditador capaz de tudo, sem estribeiras.

Arrisca confundir-se com a memória do ano derradeiro de Estaline quando o ditador soviético, em 1953, se preparava, num rasgo de paranóia incontrolável, para desencadear mais uma campanha de repressão em larga escala a pretexto de uma alegada conspiração de médicos judeus do Kremlin.

Um embaraço diplomático

O presidente russo que tentou mobilizar, via vídeo, os parceiros chineses, indianos, brasileiros e sul-africanos para o reforço dos BRICS como uma frente assumidamente anti-ocidental acabou por embaraçar toda a gente em Joanesburgo.

O desaforo de Putin humilha Xi Jinping, na sua postura imperial, Narendra Modi, no dia em que celebrava o feito da alunagem no pólo sul da Chandrayaan-3, e enxovalha Lula da Silva e Cyril Ramaphosa, putativos promotores de esforços de paz e de multilateralismo.

A política efectiva e devidamente ponderada obriga a guardar o sentido das conveniências e, consequentemente, implica que não se ofusque, baralhe, comprometa ou intimide os presentes num conclave que reúne representantes de cerca de 60 estados.

Putin ignorou tudo isso, prejudicou a imagem da Rússia como participante bem-intencionado num diálogo polido, consensual e alternativo a ignomínias e abusos norte-americanos, ao dar, uma vez mais, sinais de brutalidade na hora errada.

O bom tom, com seu cinismo de estado, não se compadece com a inconveniência de Putin que acabar por desconcertar os militares golpistas do Mali, Burkina Faso e Níger e os negocistas da República Centro Africana.

Matá-los nas cagadeiras

Putin fez-se homem forte da Rússia ao jurar matar terroristas tchetchenos nas cagadeiras, se preciso fosse, e em mais de duas décadas no Kremlin revelou-se implacável exterminando, prendendo, envenenando, arruinando e exilando rivais e inimigos.

O ajuste de contas com Prigozhin, após o motim de junho deste ano, era esperado e só demorou porque Putin confronta-se, notoriamente, com dificuldades em manter o controlo das chefias militares, das forças de segurança e dos grupos oligárquicos em que assenta o seu poder pessoal.

Não lhe faltando meios, nem oportunidades, Putin escolheu o pior momento para mostrar-se impiedoso e senhor de todos os poderes.  

A liderança do Grupo Wagner - Prigozhin e Dmitri Utkin - viajava num mesmo avião, julgando-se aparentemente em segurança graças a cumplicidades nos círculos do poder.

Putin cortou o nó górdio de compromissos ordenando a execução pública dos traidores.

Fê-lo sem mais considerações por desvario que só demonstra urgência mais próxima do temor do que do rancor.

Conta com o efeito de terror para subjugar e erradicar veleidades de oposição.

Aterrorizou quem nas elites russas ouse fazer-lhe frente ou, talvez, tenha incentivado conspirações mais céleres; por certo, desconcertou aliados e outra gente compreensiva.

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