Papas na língua
Pedro Marta Santos
16 de maio

Papas na língua

Enquanto não surgir – admite-se que de forma messiânica, mas há sempre esperança – um governo que atribua à língua o mesmo valor estratégico das exportações da agro-indústria, do investimento em I&D e do turismo, a língua portuguesa jamais terá valor universal

A 5 de maio celebrou-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa, após a consagração da data pela Unesco em Novembro de 2019. Se a nossa pátria é a língua portuguesa, ela está deserta e precisa que a salvem da insolação provocada pelos idiomas-sol: inglês, espanhol e mandarim. Os académicos, os políticos e os insones regozijam-se com as estimativas: o português é falado por mais de 260 milhões de pessoas em cinco continentes; segundo cálculos da ONU, esse número crescerá para 400 milhões em 2050 e 500 milhões em 2100 – o quarto idioma do planeta. Mas onde está o valor estratégico da língua portuguesa? No sucesso de estima de Saramago ou na listagem de Lobo Antunes na Gallimard? Nas digressões de Mariza? Nas telenovelas da TVI e da SIC vendidas para a Bielorrússia ou para a República do Chade? Em 47 anos de democracia, nunca um primeiro-ministro assumiu, em decisões e actos, a importância económica, social e cultural da língua como matriz estruturante do desenvolvimento interno e da expansão global do País. A CPLP é um nado-morto de honorabilidade manchada (Guiné-Conacri) e valor geoestratégico nulo. O Acordo Ortográfico foi um delírio bizantino que ainda assassina a vitalidade real da língua, na ânsia de agradar ao tropicalismo. A RTP Internacional só agora parece dar os primeiros passos contemporâneos, após duas décadas e meia de fadunchos, broa e vinho tinto. O Instituto Camões, tal a matriz bafienta da estrutura e a pequenez portuguesinha dos propósitos, precisava de uma década ininterrupta de Conferências do Casino – o êxtase das comemorações da semana passada veio com os discursos de um bouquet de secretários de Estado e um moderníssimo "poema coreográfico para Sophia" (sic). Enquanto não surgir – admite-se que de forma messiânica, mas há sempre esperança – um Governo que atribua à língua o mesmo valor estratégico das exportações da agro-indústria, do investimento em I&D e do turismo, a língua portuguesa jamais terá valor universal. Como meio século já foi desperdiçado, é indispensável um enorme investimento criativo e financeiro que ocuparia duas gerações. De reconversão vertical do tecido audiovisual português, das leis às empresas. De um livro branco das políticas comuns do sector com o Brasil. De formação, educação e dotação de infra-estruturas nos PALOP. De sistemas transversais de criação e produção digital/multimédia que harmonizem, diversificando, a literatura, a música, o cinema, o streaming, a pintura, as artes plásticas, a BD, os videojogos e todas as indústrias culturais, do património à revolução líquida das ideias, onde tudo flui, o local mas universal, o singular mas reconhecível, o ibérico mas planetário. Portugal terá um mercado de 400 milhões de falantes em 2050 mas, em 2021, não faz a menor ideia de como chegar a ele. 

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