Estrelas cadentes
Pedro Marta Santos
18 de julho

Estrelas cadentes

Os multimilionários que cresceram obcecados por Star Trek ou Star Wars sofrem de orfandade: como crianças retiradas à força do útero materno, os seus sonhos em órbita são um regresso a casa.

A PAR DOS FEITOS estratosféricos de Luís Filipe Vieira, a última semana viu-se marcada pelas digressões espaciais dos ricos high-tech. Depois de Elon Musk (que gostaria de transferir a Humanidade para Marte; a cabeça dele já lá está há uns anitos) ter posto em órbita um Tesla vermelho Ferrari ao som surdo em loop da Space Oddity de Bowie, Richard Branson fez-se à estrada cósmica graças à sua Virgin Galactic, ultrapassando por uns dias a Blue Origin e Jeff Bezos, o todo-poderoso da Amazon. A panspermia é uma tese defendida por uma respeitável parcela de astrónomos e bioquímicos, segundo a qual a vida na Terra terá tido origem em microrganismos depositados no planeta pela queda de um meteoro ou asteróide. Os multimilionários que cresceram obcecados por Star Trek ou Star Wars sofrem de orfandade: como crianças retiradas à força do útero materno, os seus sonhos em órbita são um regresso a casa. Mas nenhum deles acrescentou escritores, pintores ou poetas à lista dos tripulantes e passageiros. Na linha de estudos anglo-saxónicos credíveis publicados ao longo da última década, a tese de doutoramento recém-divulgada de um sociólogo do Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho, resultado de inquéritos e entrevistas a quatro centenas de estudantes com notas excepcionais (de 18 a 20 valores) no ensino secundário público, reforça uma tendência do século XXI: os melhores alunos já não escolhem as Letras e as Ciências Sociais. Se as artes nos preparam melhor para os ritmos da incerteza e a compreensão da diferença, reconhecemos como nunca o valor comunitário dos engenheiros do ambiente, dos especialistas em biotecnologia, dos peritos informáticos, dos arquitectos paisagistas, dos neurocirurgiões. Porém, no ano em que formos obrigados a exilar-nos nas Luas de outros planetas do sistema solar, ou já além da cintura de Kuiper – ao ritmo a que estragamos este Éden agarrado pela gravidade a um astro jovem, podem estar certos de que o momento da partida não demorará séculos –, talvez seja boa ideia acrescentar artistas e poetas à folha de embarque, evitando que o Universo fique apenas a cargo das câmaras pós-digitais ou dos computadores quânticos. Caso contrário, um dia atravessaremos as estrelas sem alguém capaz de descrever a sua beleza. 

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