Problemas de compreensão
João Pereira Coutinho Politólogo, escritor
17 de dezembro de 2021

Problemas de compreensão

É por isso que o jornalismo independente que ainda se pratica por cá, e que ainda não foi silenciado como aconteceu com o programa Sexta às 9 da RTP, tem uma dupla missão pela frente: vigiar o poder, sim, mas vigiar também o “jornalismo” moralmente corrupto que tudo faz para impedir essa vigilância.

Existem várias razões para a crise do jornalismo contemporâneo. Mas uma delas, raramente citada pelos sábios, é a forma como os jornais atraiçoaram a sua vocação (vigiar o poder) para se entregarem a um exercício de bajulação (defendendo o poder). Facto: ainda não existe um Julien Benda que seja capaz de fazer por estes “jornalistas” o mesmo tipo de denúncia que o célebre autor francês lançou sobre os intelectuais na década de 1920.

Mas se esse Benda precisar de um caso de estudo, Portugal é o melhor exemplo. Aqui, sempre que existe a sombra de uma suspeita sobre os poderes instalados, há uma falange ruidosa que, antes de apurar a verdade, prefere defender a verdade desses poderes.

A coisa atingiu proporções pornográficas nos consulados de José Sócrates. Prolongou-se durante os seis anos de António Costa. E exibiu-se sem pudor nos últimos dias, quando a decisão da Direcção-Geral da Saúde de não divulgar os pareceres da vacinação de crianças entre os 5 e os 11 anos (entretanto revertida) foi defendida com garras e dentes. Divulgar os pareceres para quê, ouviu-se por aí, quando os portugueses são totalmente analfabetos para os compreenderem?

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