A terceira vaga que ninguém viu
Eduardo Dâmaso Director
21 de janeiro

A terceira vaga que ninguém viu

Por cá, ninguém antecipou a terceira vaga de contágios da Covid. A começar pelo Presidente da República, ninguém antecipou coisa nenhuma. Não sei o que é pior. Se a incapacidade de prever o óbvio - a terceira vaga - ou a uma governação por “sensação” que não conseguiu medir a necessidade de meios para fazer face à doença.

O Presidente da República não fez a coisa por menos. Por cá, ninguém antecipou a terceira vaga de contágios da Covid. É verdade. A começar pelo próprio, ninguém antecipou coisa nenhuma. Num debate de campanha, na segunda-feira, Marcelo fez a síntese do momento que vivemos: "Eu diria que houve, por um lado, a não antevisão da terceira vaga no tempo propriamente dito, a concentração no caso da grande Lisboa, e houve a sensação de que não iam ser necessários tantos recursos privados e sociais quanto aquilo que acabou por ser necessário a partir, sobretudo, do crescimento dos casos em dezembro e em janeiro." Não sei o que é pior. Se a incapacidade de prever o óbvio – a terceira vaga – ou a uma governação por "sensação" que não conseguiu medir a necessidade de meios para fazer face à doença.

Em Portugal, felizmente, não atingimos o nível de combate político que a emergência pandémica suscita noutros países. Em Espanha quis-se judicializar a ação do Governo na gestão da crise, em França fez-se uma comissão parlamentar de inquérito. Por essa Europa, há modelos de conflito e escrutínio político para todos os gostos. Ainda bem que, por cá, não se somou uma radicalização política a uma situação sanitária brutalmente dramática. Mas, sejamos claros, todos enfrentamos um momento muitíssimo difícil, que não deve ser coberto por um manto de acriticismo paralisante.

O Serviço Nacional de Saúde tem demonstrado uma capacidade extraordinária de resistência mas, exclusivamente, graças aos seus profissionais, que estão exaustos. É imperativo que sejam ajudados por meios técnicos e humanos do setor privado e social nem que, para isso, seja adotada a requisição civil. É preciso contratar médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar, não apenas por quatro meses. É preciso aumentar a capacidade de resposta na frente Covid, mas também na frente de todas as patologias que já cá estavam antes do vírus. No tratamento do cancro e de outras doenças a situação é igualmente dramática. Para futuro é bom que fiquemos com uma noção precisa das lições a tirar desta crise. O que esta terrível crise tem demonstrado de bom está na capacidade e na dedicação dos profissionais, empenhados numa luta sem quartel pela vida dos seus doentes. Está na capacidade mostrada pelos professores, que têm feito grandes sacrifícios para assegurar o direito constitucional ao ensino. Esta crise tem evidenciado o talento, a generosidade, a entrega e capacidade de trabalho desses e de muitos outros portugueses. Tem mostrado também a solidez de algumas instituições. Mas evidenciou um poder político frágil, com pouca vocação para o planeamento e nenhuma capacidade para manter a coerência comunicativa, o que em saúde pública representa uma fatura pesada. É bom que, em breve, comecemos a trocar umas ideias sobre este assunto. Sobre que Estado, sistema político e governo queremos.

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