A honra perdida de Lisboa e Medina
Eduardo Dâmaso Director
17 de junho

A honra perdida de Lisboa e Medina

Fernando Medina não tem intervenção direta na transmissão dos dados sobre os ativistas russos. Mas a responsabilidade política do caso é, obviamente, do presidente da câmara.

Vamos ser claros: Fernando Medina pode não ter tido intervenção direta no envio de dados pessoais dos ativistas russos para a embaixada da Rússia em Lisboa mas a sua responsabilidade política num caso que mancha a honra de Lisboa e de Portugal no mundo inteiro é total. Num caso destes, não se pode virar a cara e assobiar para o lado. Muito menos empurrar com a barriga à espera que passe o barulho da turbamulta, ou adotar o relativismo funcional como meio de diminuição da responsabilidade de quem lidera o município, como fez António Costa, dizendo que se trata de meros "procedimentos administrativos".

Nestes casos, os "procedimentos administrativos", mesmo que despidos de intencionalidade política e resultando meramente de rotinas cumpridas com zelo por algum discreto e apagado funcionário, podem provocar danos terríveis. Uma instituição como a câmara de Lisboa não pode ser o território, por ação ou omissão, de uma grave violação de direitos humanos. A repressão, como a que Putin e outros ditadores praticam, recorre sempre, de um modo ou de outro, a "procedimentos administrativos" para justificar o exercício de um dos mais velhos monopólios do Estado, ditador ou democrático, que é o exercício da violência.

Minimizar o que se passou com o facto de se tratar de "procedimentos administrativos" não é um bom caminho. É certo que a câmara de Lisboa não é "um centro de espionagem" às ordens de Putin, como disse, com sarcasmo, António Costa. Mas a câmara, como qualquer grande, média ou pequena instituição, tem de fazer da ética, da integridade, da defesa dos direitos humanos, sob qualquer forma e em qualquer circunstância, da transparência e da responsabilidade a essência da sua missão. De resto, diga-se, a câmara de Lisboa não é um centro de espionagem de Putin, mas alguém tem dúvidas sobre a liberdade com que se movimentam em Portugal serviços secretos como os da Rússia, China, Venezuela, Israel, Angola e muitos outros!? A China, por exemplo, organizou um festival de espionagem em Portugal, no ano 2019, para controlar os contactos do bispo de Hong Kong em Fátima.

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