A guerra colonial não acabou
Eduardo Dâmaso Director
25 de fevereiro

A guerra colonial não acabou

O debate sobre a guerra colonial não deve ser feito pela manipulação ideológica da esquerda ou da direita. Deve ser feito com mais rigor e menos subjetividade. Deve ser um debate de reconciliação entre portugueses, não de ódio e vingança

Aqueles somos nós, os mais indefesos e os mais puros dos portugueses, aqui mais uma vez trazidos dos campos e da pobreza para embarcarem numa aventura em que se transcenderam.
Carlos Matos Gomes, no livro Guerra Colonial – Um Repórter em Angola

Esta frase de Carlos Matos Gomes é o ponto onde me situo no debate sobre a guerra colonial. Aliás, toda a obra de Matos Gomes e a de Rui Azevedo Teixeira, autor de uma das mais vastas, estruturadas e abrangentes reflexões sobre a guerra, a partir da literatura produzida em língua portuguesa e da sua própria experiência militar, são o ponto em que me situo no debate sobre a guerra. Desde sempre.

Tinha 12 anos no 25 de Abril de 1974 e a guerra já marcava mais a construção da minha consciência sobre os tempos que vivíamos que qualquer outra coisa. Vivendo no Alentejo, os jovens da minha idade cedo começavam a ver desaparecer rapazes pouco mais velhos que nós, cedo começámos a ver os funerais militares, o regresso dos caixões de pinho. E cedo começávamos a fazer as nossas contas sobre a chegada do dia da ida às sortes, como dizia o povo, para qualificar a inspeção. Sou, portanto, de uma geração que, felizmente, não foi à guerra mas que construiu uma memória de proximidade – familiar e social – sobre o que ela representou para Portugal, com a vantagem de a poder construir com algum distanciamento, sem cair em barricadas ideológicas.

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