A canalhice sem vacina
Eduardo Dâmaso Director
04 de fevereiro

A canalhice sem vacina

Esta geografia da canalhice não é um acaso. Ela é determinada pelo sentimento de pertença a uma elite que está no poder e que se está nas tintas para os outros, sejam cidadãos prioritários para receber a imunização ou não

A simples enumeração dos casos já conhecidos é uma vergonha coletiva. Em poucos dias temos: autarcas que reivindicam a condição de presidentes de fundações, ou de qualquer outro tipo de instituições, detentoras de lares; presidente do INEM que se vacina a si e ao staff de burocratas e propagandistas mais próximos; diretor do INEM no Porto que faz o mesmo e dá o excedente de vacinas aos funcionários de uma pastelaria próxima onde todos devem ir tomar o cimbalino matinal; a diretora da Segurança Social de Setúbal; a vereadora do Seixal; o padre da Misericórdia de Trancoso e os órgãos sociais da Santa Casa de Bragança e da Messejana; o administrador hospitalar de Famalicão; os dirigentes de várias instituições particulares de solidariedade social. Todos eles são rostos de um mal que não tem vacina: a canalhice do abuso de poder e da gestão delinquente do poder, sempre expressa numa dupla verdade, numa dupla contabilidade e numa dupla moral.

Esta geografia da canalhice não é um acaso. Ela é determinada pelo sentimento de pertença a uma elite que está no poder e que se está nas tintas para os outros, sejam cidadãos prioritários para receber a imunização ou não. Uma elite pacóvia e lorpa que está no centro e nas periferias diversas do poder. Gente detentora do monopólio da cunha, do jeitinho, do pequeno favor. Um já seria grave, todos juntos é uma infâmia que não se resolve nem com a censura política de algumas demissões nem com a censura social que, cá pelo burgo, como sabemos, não passa de mera conversa de café – nestes tempos, sem o café propriamente dito, que estão todos fechados por o Governo achar que o bicho da Covid se esconde nas chávenas das bicas.

Só com uma rápida censura penal, para os casos mais graves, e fortemente contraordenacional para os outros, é que se consegue reprimir comportamentos que, na sua génese, são dominados pela falta de educação e de integridade moral, bem como pelos sentimentos mais primários do ser humano, como o egoísmo, mas que violam flagrantemente a lei.

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