Alice no País de muitas pandemias
Carlos Rodrigues Lima Subdiretor
19 de fevereiro

Alice no País de muitas pandemias

Talvez no fim disto tudo, a Liberdade seja um valor quotidianamente cultivado e não apenas uma formalidade inscrita na Constituição. Até lá, desculpem qualquer coisa, porque os efeitos da hibernação forçada são devastadores.

1) Afogados na informação sobre a pandemia, ninguém deu conta de uma importante notícia que a Procuradoria Distrital de Lisboa fez questão de partilhar. Convém sempre assinalar quando a justiça, ao contrário do que muitos sugerem, funciona e atua quase em tempo real face aos prevaricadores. Então não é que um sujeito foi condenado, em processo sumário, zás, a seis meses de cadeia por ter recusado usar a máscara? Sem contemplações, o tribunal condenou o indivíduo, ainda que tenha substituído a pena por 180 dias de trabalho comunitário, o que levou a Procuradoria Distrital, com júbilo, a dar conta do sucedido, de forma a tranquilizar a comunidade.

É perante casos como este que pessoas como João Rendeiro, Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, José Sócrates, Ricardo Salgado, a rapaziada do Monte Branco, a outra rapaziada dos colégios GPS e do processo Tutti-Frutti podem dormir descansados, assim como todos nós. O Ministério Público está alinhado com o discurso do Governo e, como fez questão de mostrar, é implacável com a falta de máscaras na via pública. Aliás, a grande criminalidade está e estará reduzida a máscaras, almoçaradas, jantaradas e convívios. Tudo em nome da paz social.

2) Os tempos estão estranhos. Não há vida além da pandemia, os ditames do estado de emergência impõem-se com a normalidade decorrente do estado do mundo. Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente, diz-nos que os portugueses, seja lá a quem for que se está a dirigir, "compreenderam" que os alemães vieram cá só para fazer umas fotografias e umas imagens para televisão – em política diz-se, como disse o Presidente, "apoios simbólicos" – e que o confinamento era necessário de forma a fazer descer o número de infetados e a pressão no Serviço Nacional de Saúde. Ora, compreenderam tão bem que o Presidente avisou, desde logo e seja qual for o cenário epidemiológico, que não há Páscoa para ninguém, não vá a compreensão nacional ter um prazo de validade.

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