COP365
Tiago Pereira Membro da Direcção e Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses
17 de novembro

COP365

Na COP26 senti que - a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas resultantes da acção humana - cresce uma onda de reconhecimento do problema e das suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança.

Há 339 anos, Tiago, um jovem nascido no Portugal do meio do século XVII, deslocou-se ao local do seu novo trabalho no Campo de Santa Clara em Lisboa. Participaria nesse 1682 do reinício da construção da Igreja de Santa Engrácia. Seria impossível a Tiago prever como seria a vida em Lisboa e no Mundo em 2021, como seria improvável prever que a obra em cuja construção participava apenas terminasse e fosse inaugurada em 1966, quase 400 anos depois do seu início (1568), já como Santa Engrácia – Panteão Nacional. 

Tal como aquele Tiago, não tenho pretensões de imaginar como será a vida em Portugal ou no Mundo em 2360, quais serão os desafios da sociedade na segunda metade do século XXIV ou sequer como será a sociedade. Não tenho, portanto, quaisquer pretensões a escrever-vos sobre o que seria uma potencial COP365 (considerando que haveria uma a cada ano e que não sucederia algo como em 2020), antes a reflectir sobre como, transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano, é o que mais nos pode projectar para uma acção climática urgente e proteger de uma dinâmica tipo obra de Santa Engrácia, conforme popularmente definimos o que consideramos que vai demorar muito tempo ou nunca chegar a ser concluído. 

Senti-o profundamente em Glasgow na passada semana. Ali estive, na pequena equipa que representou a Global Psychology Alliance na COP26, aliança de 70 associações de psicologia e de psicólogas/os dos cinco continentes criada na sequência da "International Summit on Psychology and Global Health: A Leader in Climate Action" (Novembro de 2019, Lisboa). Senti que - a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas resultantes da acção humana - cresce uma onda de reconhecimento do problema e das suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança. Senti que a decepção face aos (pequenos) passos e compromissos políticos assumidos resulta da esperança das (grandes) acções que se querem construídas e implementadas já hoje. Senti que o desencanto pela ausência de figuras de vulto resulta da crescente percepção da crise climática como veículo de outras crises, um desafio societal complexo que, também simbolicamente, tem que valer mais que qualquer outro problema estrutural ou conjuntural que justifique a não presença de figuras cimeiras de executivos, como aconteceu com diversos países, incluindo o nosso, numa curiosa e inquietante interpretação do programa de governo que, apesar de apresentar como primeiro de quatro desafios estratégicos "combater as alterações climáticas", não resulta na priorização para comparência e intervenção do nosso primeiro-ministro em Glasgow. 

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