Pessoas, ciência, políticas, instituições – Confiança
Tiago Pereira Membro da Direcção e Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses
02 de dezembro de 2021

Pessoas, ciência, políticas, instituições – Confiança

A velocidade e a forma de acesso e disseminação de (des)informação, a par da crescente polarização da e na sociedade, forçam uma forte e circular associação das crises de confiança nas pessoas, na ciência, nas políticas e nas instituições.

Por um momento imaginemo-nos com menos sete anos e a sermos convidados para escrever o guião para um filme que ficcionasse tensões políticas em países com democracias consolidadas. E que, por absurdo, o nosso guião começava num discurso do Estado da Nação nos Estados Unidos da América (EUA) e, que procurando afirmar a polarização, ficcionávamos a entrada de um presidente dos EUA que deixa de mão estendida (sem a cumprimentar) a presidente da Câmara dos Representantes e que esta, no final do discurso do presidente, ao invés de o aplaudir como habitualmente sucede, rasga de pé e nas suas costas as folhas desse discurso escrito. Continuava o guião com uma entrevista a um deputado e candidato a Presidente da República em Portugal que começava com a seguinte pergunta do jornalista: "...há dias escreveu esta frase nas redes sociais: Deus confiou-me a difícil, mas honrosa, missão de transformar Portugal; Quando é que isso aconteceu?". E que, também por absurdo, o guião terminava com a invasão do Capitólio por apoiantes do candidato derrotado nas Eleições Presidenciais no dia da ratificação da vitória do candidato eleito presidente dos EUA.

Ficção que porventura consideraríamos inopinada há sete anos, realidade entre Fevereiro de 2020 e Janeiro de 2021. Realidade num tempo inferior a 12 meses, em dois países com Eleições Presidenciais nesse período e a braços com uma pandemia que, de forma abrupta e disruptiva, implicou fortíssimas restrições e alterações ao seu quotidiano e um pouco por todo o Mundo. Realidade num período de complexidade e ambiguidade crescente e de desafios societais (globais) significativos e urgentes. Período de emergência de uma crise de confiança, que trespassa várias áreas da sociedade desde as suas instituições (políticas, da sociedade civil ou da comunicação social), às políticas (migrações ou equidade), à ciência (vacinas ou alterações climáticas da responsabilidade da acção humana), às pessoas (de idades e/ou proveniências sociais ou culturais distintas, decisoras e decisores políticos ou jornalistas).

A velocidade e a forma de acesso e disseminação de (des)informação, a par da crescente polarização da e na sociedade, forçam uma forte e circular associação das crises de confiança nas pessoas, na ciência, nas políticas e nas instituições. Associação que gera maior fragmentação na sociedade, pelo foco e reforço sistemático do que funciona menos bem (face ao que funciona bem), dos problemas (por oposição às soluções), da irracionalidade e obscurantismo (por oposição à racionalidade e factualidade) e de posturas de confronto (por oposição às de cooperação) e de estigmatização (por oposição à compreensão, empatia e compaixão).

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