Como a Ucrânia tornou-se uma potência e ninguém percebeu?
A superioridade ucraniana começou a surgir não na linha da frente, eternamente congelada, mas na profundidade. Refinarias russas, depósitos de combustível, cruzamentos ferroviários, aeródromos e fábricas passaram a ser atingidos por uma combinação de drones baratos, inteligência artificial e mísseis de longo alcance.
O discurso de Vladimir Putin no 9 de Maio, o dia mais sagrado do calendário político russo, a celebração da vitória na Grande Guerra Patriótica, teve qualquer coisa de inesperado: soou a bandeira branca. Não houve chama épica, não houve demonstração esmagadora de força, nem sequer a liturgia militar que durante décadas serviu para reafirmar a ideia de uma Rússia invencível. Recorde-se que, em 2010, desfilaram na Praça Vermelha militares da Ucrânia, da Polónia, do Reino Unido e até dos Estados Unidos, numa memória comum da luta contra o nazismo. Em 2026, restou um Kremlin contido, quase defensivo.
O mundo mediático ocidental mal reparou como chegámos a este ponto. Estava entretido com a mais sedutora guerra entre Israel e o Hamas/Hezbollah, cujo monopólio da atenção pública é reclamado pela extrema-esquerda das flotilhas, bem como a guerra entre EUA e Irão, com as ameaças e recuos de Trump, ou com a teatralização permanente da política internacional transformada em entretenimento. E, no entanto, o que aconteceu em Moscovo talvez tenha sido o acontecimento geopolítico mais importante do ano.
Da última vez que muitos olharam seriamente para a Ucrânia, Kiev recuava diariamente no terreno. A narrativa dominante era simples: a Rússia tinha profundidade estratégica, indústria pesada, homens, recursos energéticos e tempo; a Ucrânia tinha coragem, mas dependia da boa vontade ocidental. Entretanto, quase sem espetáculo mediático, os ucranianos fizeram aquilo que as guerras modernas exigem e premeiam: adaptaram-se.
Enquanto Moscovo continuou presa à lógica soviética da massa e do desgaste, Kiev construiu uma máquina de guerra distribuída geograficamente, tecnológica e barata. O símbolo disso é o FP-5 Flamingo, um míssil de cruzeiro concebido para produção descentralizada, com componentes civis, fibra de carbono, motores simplificados e uma filosofia brutalmente pragmática: quantidade, autonomia e capacidade de destruição.
O mais importante nem é o alcance de 3.000 quilómetros, capaz de colocar refinarias, bases aéreas e centros logísticos russos sob ameaça permanente. É o facto de ser um sistema totalmente ucraniano. Ao contrário dos Tomahawk americanos ou dos Storm Shadow britânicos, o Flamingo não precisa de autorização política de Washington, Londres ou Bruxelas para atingir território russo.
A guerra mudou quando a Ucrânia deixou de mendigar autorização estratégica.
A superioridade ucraniana começou a surgir não na linha da frente, eternamente congelada, mas na profundidade. Refinarias russas, depósitos de combustível, cruzamentos ferroviários, aeródromos e fábricas passaram a ser atingidos por uma combinação de drones baratos, inteligência artificial e mísseis de longo alcance. Moscovo descobriu aquilo que os EUA descobriram no Vietname e Israel aprendeu parcialmente em 2006 no Líbano: uma potência pesada pode ser tecnologicamente ultrapassada por um adversário mais flexível.
A Rússia continua rica. O problema é que, a cada dia, fica operacionalmente mais pobre.
A guerra entre EUA e Irão empurrou o petróleo para valores próximos dos 120 dólares por barril. Em teoria, isto devia ser uma bênção para Putin. E é, parcialmente. O Kremlin arrecada receitas gigantescas graças ao choque energético global. Mas há um paradoxo: os ataques ucranianos estão a destruir precisamente a infraestrutura necessária para transformar petróleo bruto em combustível utilizável. A Rússia ganha dinheiro a vender crude, mas perde capacidade interna de refinação. Tem de vender em bruto, a preço de saldo, para a China refinar, por favor exemplo. Está financeiramente líquida e industrialmente asfixiada.
É aqui que o discurso de Putin ganha sentido. O Kremlin percebeu que a combinação entre IA, guerra assimétrica e produção militar descentralizada anulou parte da vantagem russa em território, massa humana e poder convencional. Pela primeira vez desde 2022, Moscovo enfrenta a possibilidade real de ver a sua infraestrutura estratégica degradada mais rapidamente do que consegue repará-la.
Enquanto uma Europa alienada, e a tentar desesperadamente ser um mediador credível, ainda ensaia prometer cedências territoriais ucranianas em troca da Pax Russa, na realidade do terreno, e pela primeira vez desde o início da invasão, é a própria Rússia que começa a equacionar recuos estratégicos e fórmulas de compromisso que há dois anos seriam consideradas humilhantes pelo Kremlin. A simples existência de propostas como uma zona desmilitarizada de 300 quilómetros, a internacionalização funcional de Mariupol, um estatuto híbrido para a Crimeia ou referendos futuros supervisionados internacionalmente no Donbass, revela uma mudança tectónica na posição negocial russa. O discurso de Putin no 9 de Maio confirmou isso mesmo: abandonou a retórica maximalista da conquista total e passou a falar em “ganhos no terreno”, linguagem típica de quem procura consolidar o que já possui, e não se expandir indefinidamente. A diferença é fundamental. Moscovo deixou de negociar uma paz assente em novas conquistas territoriais e passou a tentar garantir que não perde aquilo que já controla.
Há ainda um fator raramente discutido: a China.
Pequim tornou-se o verdadeiro árbitro silencioso desta guerra. O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz e o caos energético no Médio Oriente colocaram a economia chinesa sob enorme pressão. Para a China, estabilizar a Ucrânia já não é apenas uma questão diplomática; é uma questão de sobrevivência económica.
Por isso começa a surgir o cenário impensável há dois anos: uma paz garantida por Pequim. É nisso que a China silenciosamente, como é apanágio das Civilizações milenares e sábias, aposta: na mediação chinesa, e em ser o império do meio a garantir a paz e a reconstruir os Estados beligerantes. Tropas chinesas, tipo " capacetes azuis" em missão internacional no Donbass, reconstrução financiada por bancos chineses, portos ucranianos integrados na Nova Rota da Seda( como acontece com o Pireu , na Grécia , ou como Pequim tentou fazer com Sines) e acesso preferencial da China ao lítio, ao titânio e aos minerais críticos ucranianos.
Bruxelas arrisca-se a perceber demasiado tarde o risco estratégico: a Ucrânia pode sair da órbita militar russa apenas para entrar na órbita económica chinesa.
E isto terá consequências profundas para a Europa. A indústria automóvel alemã poderá depender do lítio controlado por empresas chinesas em território ucraniano. Os veículos elétricos chineses montados na Ucrânia entrarão no mercado europeu com preços impossíveis de acompanhar. A dependência energética europeia do gás russo poderá ser substituída por uma dependência tecnológica chinesa.
Portugal, paradoxalmente, pode beneficiar no curto prazo. Sines ganha centralidade estratégica como porta atlântica de gás natural liquefeito. A eletricidade poderá estabilizar graças ao peso das renováveis. Mas os combustíveis continuarão caros enquanto o Médio Oriente permanecer em combustão.
Há, contudo, uma questão que quase ninguém quer discutir.
A Ucrânia que sairá desta guerra será provavelmente a maior potência militar europeia continental. Nenhum exército europeu possui hoje a experiência operacional, a capacidade de adaptação tecnológica ou o conhecimento de guerra real que Kiev acumulou. Estamos a falar de um país que aprendeu a produzir mísseis, drones, sistemas de IA militar e redes logísticas dispersas em cenário de sobrevivência nacional.
Hoje, isso tranquiliza a Europa porque Zelensky é alinhado com Bruxelas. Amanhã, pode não ser assim.
A integração acelerada da Ucrânia na União Europeia, no espaço Schengen e, eventualmente, no euro, será feita sob a ideia de que Kiev é um parceiro estratégico natural do Ocidente. Mas imaginemos um cenário diferente daqui a dez anos: crise económica, fadiga social, nacionalismo militarizado e a eleição de um líder eurocético ao estilo Orbán, mas à frente do exército mais numeroso, tecnológico e experiente da Europa?
É aqui que reside o verdadeiro dilema europeu.
A União Europeia descobriu, tarde demais, que segurança e energia continuam a ser o centro da História. E que as guerras modernas já não são decididas apenas por divisões blindadas, mas por algoritmos, cadeias logísticas, IA, drones baratos e controlo de matérias-primas.
Putin percebeu isso como uma chibatada. A China percebeu isso por argúcia. A questão é saber se Bruxelas percebeu também, ou se continuará distraída com o ruído mediático, com o "The Apprentice" presidencial de Trump, enquanto o mapa do poder mundial muda diante dos seus olhos.
Como a Ucrânia tornou-se uma potência e ninguém percebeu?
A superioridade ucraniana começou a surgir não na linha da frente, eternamente congelada, mas na profundidade. Refinarias russas, depósitos de combustível, cruzamentos ferroviários, aeródromos e fábricas passaram a ser atingidos por uma combinação de drones baratos, inteligência artificial e mísseis de longo alcance.
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