Sábado – Pense por si

Eurico Reis
Eurico Reis Juiz Desembargador Jubilado
09 de agosto de 2026 às 12:43

Começar de novo - Será que já chegámos ao fundo do poço da mediocridade? Infelizmente ainda não

Será que o Senhor Professor Doutor Fernando Alexandre nunca ouviu falar da Lei de Murphy? Mas não, ele deve ter plena confiança na “mão invisível do Mercado”.

É hoje perfeitamente claro que o cidadão Luís Neves não abandonará, pelo seu pé - ou seja, voluntariamente - o lugar de Ministro da Administração Interna. 

Aliás, o mesmo acontece com o atual Ministro da Educação, Ciência e Inovação, apesar da sua manifesta incompetência na gestão do processo dos exames finais nacionais do ensino secundário e da sua abjecta falta de empatia e sentido de humanidade para com os rapazes e as raparigas e as suas respectivas famílias, que estão a sofrer os efeitos deste verdadeiro “grande passo em frente” que constituiu a digitalização dos exames realizados pelos alunos e alunas, e que me faz lembrar o desencadeado na China por Mao Zedong (ou Tsé-Tung, conforme a grafia que se quiser escolher), e o PCC entre 1958 e 1962. 

Tratou-se de uma campanha de industrialização (forçada) realizada na China e de cuja concretização resultaram, nesse período de quatro anos, pelo menos 45 milhões de mortos. 

Vá lá, que se saiba, em Portugal não houve mortos em consequência desse intenso “espírito reformista” do governo - porque o Ministro da Educação não pode ser considerado o único responsável por esse desastre. 

E, seguramente, os culpados não são os professores como o cidadão Fernando Alexandre se atreveu a afirmar. 

Quem inicia uma reforma tão ampla como esta tem obrigatoriamente de pensar nas entropias que naturalmente surgirão e antecipar a solução para as mesmas. 

Será que o Senhor Professor Doutor Fernando Alexandre nunca ouviu falar da Lei de Murphy? Mas não, ele deve ter plena confiança na “mão invisível do Mercado”. 

E muitos outros exemplos de “persistência indomável” na ocupação dos lugares de mando por parte de ministros deste governo poderiam aqui ser indicados – e Saúde e Defesa são uns desses exemplos. 

Como não me cansarei de repetir, este governo presidido por Luís Montenegro é bem pior do que aquele que teve Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro. 

Só que o caso do ainda Ministro da Administração Interna é, a meu ver, o pior de todos. 

E é-o porque está a minar seriamente a credibilidade e a integridade do Estado democrático na sua totalidade, e muito particularmente o bom nome e o prestígio de uma instituição fundamental do Estado de Direito que é a Polícia Judiciária e das pessoas que aí exercem funções. 

A situação está inclusivamente a pôr em xeque o próprio Presidente da República, já que, com tudo o que está a acontecer, é impossível considerar que existe um normal funcionamento das instituições. 

O que torna algo incompreensível e até misteriosamente surpreendente a defesa acalorada que muita gente - e não apenas gente do PSD, sublinho – está a fazer do antigo director nacional da Polícia Judiciária. Ou se calhar não… 

Mas há algo mais que se tornou perfeitamente claro. 

O silêncio e a inactividade do homem do caso Spinumviva mostra, de uma forma indesmentível que Luís Montenegro perdeu completamente o controle sobre a situação e não sabe como resolver este gravíssimo problema. 

Se calhar já é também o actual primeiro-ministro que não possui condições para o continuar a ser. 

Como igualmente não me cansarei de repetir, a solução não passa pela dissolução do Parlamento e pela convocação de novas eleições gerais. 

E não o afirmo por ter medo do crescimento do Chega, até porque penso que as palhaçadas do il capo André Ventura já começam a tornar visível para as “formigas” que estão fartas das “cigarras” que essa organização e essas pessoas xenófobas, racistas, homofóbicas, supremacistas e fascizantes, fazem parte do problema e não da solução para as graves contrariedades em que estamos mergulhados. 

De facto, a resolução dessas crises – das várias crises que assolam o país (e a maioria de nós) – exige planificação e pensamento estratégico, e estabilidade, e isso não é consentâneo com os curtos ciclos eleitorais que têm sido constantes em Portugal nos últimos anos. 

Claro que se Luís Montenegro e o seu governo persistirem neste seu caminho de desgaste e destruição da credibilidade das instituições democráticas e de sistemático e ética e socialmente perigoso enfraquecimento da consistência do Estado de Direito - e, por exemplo, a repetição, nas actuais circunstâncias e relativamente ao MAI, do caso Galamba, nos tempos de António Costa, caso este cuja gravidade foi infinitamente menor -, a dissolução da Assembleia da República pode tornar-se indispensável. 

E até vital para a sobrevivência da Democracia e do Estado de Direito. 

Penso, mas posso estar enganado, que apesar da viscosidade deste pântano de mediocridade e incompetência a que nos conduziram os “videirinhos” da Sociedade, e em particular os que agem na esfera política, que ainda não chegámos a esse ponto. 

Não obstante, sem prejuízo da necessidade de os partidos políticos democráticos fazerem ouvir a sua voz, apresentando as soluções que propõem para a resolução dos problemas concretos que afectam a vida dos membros da Comunidade, para usar uma expressão popular, a bola está nos pés (ou nas mãos) do PSD e dos seus órgãos nacionais. 

Esperemos que não se perca, mais uma vez, a oportunidade de marcar o golo que tanto tarda a surgir. 

 

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