Sábado – Pense por si

Renato Gomes Carvalho
Renato Gomes Carvalho Membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses
12 de fevereiro de 2026 às 07:00

Quando a água baixar

Capa da Sábado Edição 11 a 17 de fevereiro
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 11 a 17 de fevereiro

É nestas ocasiões que os primeiros socorros psicológicos têm muito valor, avaliando a condição de cada pessoa e as suas necessidades imediatas, evitando que as pessoas se desorganizem e promovendo maior funcionalidade.

Dispensa uma descrição exaustiva a situação que o nosso País tem vivido ao longo das últimas semanas. Milhares de pessoas, famílias e empresas têm estado em situação de vulnerabilidade, com medo, ansiedade e a perspetiva de que não será tão cedo que regressarão ao que existia antes. Numa altura em que persistem todas estas dificuldades, importa assinalar duas ideias fundamentais.

Em primeiro lugar, milhares de pessoas estão a passar por experiências potencialmente traumáticas, isto é, situações que, pela sua natureza e intensidade, podem levar a perturbações psicológicas e a disfuncionalidade. O grau em que esse potencial traumático se concretizará, e consequentemente a trajetória de recuperação, depende da combinação de vários fatores, uns de risco, outros de proteção. Por exemplo, a existência de uma rede social de apoio corresponde a um fator de proteção, ao passo que a sua ausência corresponde a um fator de risco. 

Do ponto de vista da saúde mental e da trajetória de recuperação, não esqueçamos algo muito importante: quando estamos perante uma situação que nos provoca stress agudo e atinge a dimensão a que assistimos, existe uma grande mobilização para a ação e até um certo heroísmo e a mobilização para a ajuda por parte de muitos. Disto tem a comunicação social dado conta. É nestas ocasiões que os primeiros socorros psicológicos têm muito valor, avaliando a condição de cada pessoa e as suas necessidades imediatas, evitando que as pessoas se desorganizem e promovendo maior funcionalidade. Mas isto não nos pode fazer esquecer que, depois desta fase inicial mais intensa - depois das câmaras de televisão irem embora e sobretudo depois da água baixar - as necessidades de intervenção psicológica persistirão. Não vão descer, mas subir. Já não estaremos a falar de primeiros socorros psicológicos, mas de necessidades de intervenção mais prolongadas. Afinal, a prevalência das perturbações psicológicas, em que se inclui o stress pós traumático, a ansiedade, a depressão e outras, aumenta nas comunidades que foram afetadas por uma catástrofe. 

A segunda ideia envolve a necessidade de coordenação das intervenções no terreno, incluindo das intervenções psicológicas. Em formações sobre intervenção psicológica em crise e catástrofe sublinha-se frequentemente que, perante uma situação desta natureza, a primeira atitude de qualquer agente deve ser não agir de imediato. Tal pode parecer paradoxal, mas exprime uma ideia central: em cenários como este, o que menos se deseja são intervenções caóticas e descoordenadas, dependentes do voluntarismo individual — para não falar de “síndromes de super-heroi” que, por vezes, se observam nestes momentos. A lógica de “vamos todos ajudar” pode, se não for devidamente enquadrada e estruturada, dificultar mais do que ajudar e até causar danos.

As intervenções nos teatros de operações têm de estar previstas, ter um plano, e seguir uma cadeia de comando. Foi neste âmbito que se inseriu a ativação da bolsa de psicólogos da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Seguindo-se uma sequência de níveis de intervenção, esta bolsa foi ativada após serem esgotados os níveis anteriores de resposta e as respetivas capacidades. É certo que, quando nos defrontamos com a situação com que o nosso País se defronta, existe um ímpeto natural para ajudar e para a ação. Ainda bem que é assim. Tenhamos todos consciência que essa ajuda só será realmente uma ajuda na medida em que for organizada e seguir um procedimento.

 

P.S.: Uma das cenas mais marcantes no dia das eleições presidenciais foi a de um bote a transportar uma urna com os votos das pessoas de uma localidade que estava isolada pelas águas. Uma imagem emblemática que, associada à deslocação dos portugueses às secções de votos por todo o País, nos recorda o valor da democracia e que não devemos ser ligeiros em aceitar que pode ser adiada ou suspensa.

 

Mais crónicas do autor
12 de fevereiro de 2026 às 07:00

Quando a água baixar

É nestas ocasiões que os primeiros socorros psicológicos têm muito valor, avaliando a condição de cada pessoa e as suas necessidades imediatas, evitando que as pessoas se desorganizem e promovendo maior funcionalidade.

29 de janeiro de 2026 às 07:00

A indústria da zanga

Ser anti qualquer coisa é uma tática conhecida e a mobilização é frequentemente superior quando há circunstâncias de contexto que favorecem o ressentimento, a zanga ou a revolta. Se estamos zangados com algo, estamos mais ativados e propensos para certo comportamento.

23 de janeiro de 2026 às 07:00

Soltem os prisioneiros

Na verdade, brincar – especialmente sem a mediação de ecrãs – não é somente uma questão de lazer. O papel do brincar no desenvolvimento humano está amplamente demonstrado.

18 de dezembro de 2025 às 07:00

Informação falsa gera memórias falsas

A desinformação não é apenas um fenómeno “externo”: a nossa própria memória também é vulnerável, sujeita a distorções, esquecimentos, invenções de detalhes e reconstruções do passado.

25 de novembro de 2025 às 11:30

A saúde mental não começa no consultório

Como país, enquanto não formos eficientes e articulados nesta missão, por muito que se reforcem condições de tratamento continuaremos a lamentar-nos pela “elevada prevalência de perturbações psicológicas no nosso país”. 

Mostrar mais crónicas