É nestas ocasiões que os primeiros socorros psicológicos têm muito valor, avaliando a condição de cada pessoa e as suas necessidades imediatas, evitando que as pessoas se desorganizem e promovendo maior funcionalidade.
Dispensa
uma descrição exaustiva a situação que o nosso País tem vivido ao longo das
últimas semanas. Milhares de pessoas, famílias e empresas têm estado em
situação de vulnerabilidade, com medo, ansiedade e a perspetiva de que não será
tão cedo que regressarão ao que existia antes. Numa altura em que persistem
todas estas dificuldades, importa assinalar duas ideias fundamentais.
Em
primeiro lugar, milhares de pessoas estão a passar por experiências
potencialmente traumáticas, isto é, situações que, pela sua natureza e
intensidade, podem levar a perturbações psicológicas e a disfuncionalidade. O
grau em que esse potencial traumático se concretizará, e consequentemente a
trajetória de recuperação, depende da combinação de vários fatores, uns de
risco, outros de proteção. Por exemplo, a existência de uma rede social de
apoio corresponde a um fator de proteção, ao passo que a sua ausência
corresponde a um fator de risco.
Do
ponto de vista da saúde mental e da trajetória de recuperação, não esqueçamos
algo muito importante: quando estamos perante uma situação que nos provoca
stress agudo e atinge a dimensão a que assistimos, existe uma grande
mobilização para a ação e até um certo heroísmo e a mobilização para a ajuda
por parte de muitos. Disto tem a comunicação social dado conta. É nestas
ocasiões que os primeiros socorros psicológicos têm muito valor, avaliando a
condição de cada pessoa e as suas necessidades imediatas, evitando que as
pessoas se desorganizem e promovendo maior funcionalidade. Mas isto não nos
pode fazer esquecer que, depois desta fase inicial mais intensa - depois das
câmaras de televisão irem embora e sobretudo depois da água baixar - as
necessidades de intervenção psicológica persistirão. Não vão descer, mas subir.
Já não estaremos a falar de primeiros socorros psicológicos, mas de
necessidades de intervenção mais prolongadas. Afinal, a prevalência das
perturbações psicológicas, em que se inclui o stress pós traumático, a
ansiedade, a depressão e outras, aumenta nas comunidades que foram afetadas por
uma catástrofe.
A
segunda ideia envolve a necessidade de coordenação das intervenções no terreno,
incluindo das intervenções psicológicas. Em formações sobre intervenção
psicológica em crise e catástrofe sublinha-se frequentemente que, perante uma
situação desta natureza, a primeira atitude de qualquer agente deve ser não
agir de imediato. Tal pode parecer paradoxal, mas exprime uma ideia central: em
cenários como este, o que menos se deseja são intervenções caóticas e
descoordenadas, dependentes do voluntarismo individual — para não falar de
“síndromes de super-heroi” que, por vezes, se observam nestes momentos. A
lógica de “vamos todos ajudar” pode, se não for devidamente enquadrada e
estruturada, dificultar mais do que ajudar e até causar danos.
As
intervenções nos teatros de operações têm de estar previstas, ter um plano, e
seguir uma cadeia de comando. Foi neste âmbito que se inseriu a ativação da
bolsa de psicólogos da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Seguindo-se uma
sequência de níveis de intervenção, esta bolsa foi ativada após serem esgotados
os níveis anteriores de resposta e as respetivas capacidades. É certo que,
quando nos defrontamos com a situação com que o nosso País se defronta, existe
um ímpeto natural para ajudar e para a ação. Ainda bem que é assim. Tenhamos
todos consciência que essa ajuda só será realmente uma ajuda na medida em que
for organizada e seguir um procedimento.
P.S.: Uma das cenas mais marcantes
no dia das eleições presidenciais foi a de um bote a transportar uma urna com
os votos das pessoas de uma localidade que estava isolada pelas águas. Uma
imagem emblemática que, associada à deslocação dos portugueses às secções de
votos por todo o País, nos recorda o valor da democracia e que não devemos ser
ligeiros em aceitar que pode ser adiada ou suspensa.
É nestas ocasiões que os primeiros socorros psicológicos têm muito valor, avaliando a condição de cada pessoa e as suas necessidades imediatas, evitando que as pessoas se desorganizem e promovendo maior funcionalidade.
Ser anti qualquer coisa é uma tática conhecida e a mobilização é frequentemente superior quando há circunstâncias de contexto que favorecem o ressentimento, a zanga ou a revolta. Se estamos zangados com algo, estamos mais ativados e propensos para certo comportamento.
Na verdade, brincar – especialmente sem a mediação de ecrãs – não é somente uma questão de lazer. O papel do brincar no desenvolvimento humano está amplamente demonstrado.
A desinformação não é apenas um fenómeno “externo”: a nossa própria memória também é vulnerável, sujeita a distorções, esquecimentos, invenções de detalhes e reconstruções do passado.
Como país, enquanto não formos eficientes e articulados nesta missão, por muito que se reforcem condições de tratamento continuaremos a lamentar-nos pela “elevada prevalência de perturbações psicológicas no nosso país”.
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