Sábado – Pense por si

Renato Gomes Carvalho
Renato Gomes Carvalho Membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses
29 de janeiro de 2026 às 07:00

A indústria da zanga

Ser anti qualquer coisa é uma tática conhecida e a mobilização é frequentemente superior quando há circunstâncias de contexto que favorecem o ressentimento, a zanga ou a revolta. Se estamos zangados com algo, estamos mais ativados e propensos para certo comportamento.

Há uns tempos, a Economist publicou uma peça muito interessante sobre o designado “partidarismo negativo”, um termo que se refere ao movimento de voto e ativismo, não para apoiar aquilo em que se acredita, mas por se ser contra o outro ou algo. Através de uma análise a décadas de dados de democracias sobre os sentimentos dos eleitores em relação aos partidos que apoiam e a que se opõem, a equipa autora do estudo verificou que o designado partidarismo negativo agravou-se de forma significativa e que a forma como as pessoas olham para a atividade política se relaciona com um maior ou menor sentimento de animosidade contra o outro. Neste caso, pessoas que vejam a atividade política como uma luta por recursos escassos, ou que olham para o governo como sendo ineficaz, ou que não esperam prosperar nos próximos anos e se sentem mal com as suas vidas, estão mais suscetíveis àquele tipo de sentimentos. 

É certo que este movimento de voto sempre existiu e é natural que certos sentimentos sejam muito mobilizadores. Mas a realidade dos últimos anos, o ambiente de polarização e extremismo, alimentado por uma combinação de vários aspetos, desde circunstâncias estruturais como a desigualdade, até à prevalência de ferramentas como as redes sociais digitais, têm exponenciado este padrão.

Ser anti qualquer coisa é uma tática conhecida e a mobilização é frequentemente superior quando há circunstâncias de contexto que favorecem o ressentimento, a zanga ou a revolta. Se estamos zangados com algo, estamos mais ativados e propensos para certo comportamento. Nas redes sociais tem maior potencial viral tudo aquilo que remeta para aqueles sentimentos - o que significa que as plataformas electrónicas têm interesse comercial nisto. 

Mas vivermos num clima de convivência preenchido pelo antagonismo e por ódios - o que é diferente de existir diversidade - tem vários problemas: a confiança e a coesão são corroídas e o cansaço e a falta de esperança crescem. Passamos a estar num quadro em que não há consensos, de convivência impossível, onde cada divergência passa a ser uma espécie de luta existencial para derrotar um inimigo. Além da sua ineficácia, isto promove o afastamento das pessoas e a sua disponibilidade para darem o seu contributo cívico.

Evidentemente, isto não significa que deva haver unanimismos ou que não possa haver conflitos e discordâncias - bem pelo contrário. O que está aqui em causa é o risco de uma espiral de declínio, de uma circunstância insustentável em que o comportamento é apenas motivado para deitar o outro e/ou algo abaixo. Além de que instigar a zanga e o ressentimento, nomeadamente através da demagogia, da desinformação e do populismo hostil, é uma boa camuflagem para quem esteja menos qualificado.

Progredir só é possível com debate de diferenças e com compromissos, o que se torna difícil se a base da dialética for a demonização do outro. As comunidades somente poderão avançar se existir um terreno comum em que diferentes movimentos se possam entender, desde logo em pressupostos básicos, como é o da aceitação da democracia e das suas regras, a preservação das instituições, a civilidade e o respeito mútuo. Caso contrário, resta-nos a guerrilha, em que ninguém ganha - exceto os que querem apenas ser guerrilheiros. 

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