O casamento infantil é uma realidade para milhões de crianças todos os anos. Casadas antes de completar 18 anos, muitas são forçadas a abandonar a escola, sujeitas a várias formas de violência, a uma gravidez e à maternidade para a qual não estão preparadas física ou emocionalmente.
Hoje é dia de São Valentim. Deixe-me tomar alguns minutos do seu tempo para lhe falar de amor e de consentimento.
Agora que já está a recuperar da surpresa de me ver escrever sobre este dia que para muitos é um dia irrelevante e até irritante, mas que para tantas pessoas é do dia da celebração do amor, pense como seria se a escolha de o celebrar ou não, de se irritar ou não fosse verdadeiramente universal, se todas as pessoas pudessem escolher namorar, casar, ter sexo. E o dia de São Valentim parece-me um dia bom para fazermos essa reflexão... embora para mim todos os dias sejam bons para pensar em consentimento, direitos e escolhas.
O casamento infantil é uma realidade para milhões de crianças todos os anos. Casadas antes de completar 18 anos, muitas são forçadas a abandonar a escola, sujeitas a várias formas de violência, a uma gravidez e à maternidade para a qual não estão preparadas física ou emocionalmente. É, inequivocamente, uma violação dos direitos humanos.
O casamento infantil é provavelmente mais comum do que imagina e acontece em todo o mundo.
Temos hoje mais de 650 milhões de mulheres e raparigas que foram casadas antes dos 18 anos e embora o casamento infantil seja mais prevalente nos países com menores rendimentos, a verdade é que se trata de um fenómeno global. É também verdade que nem todos os casamentos infantis resultam de decisões impostas pelos pais ou guardiões legais – há adolescentes que tomam esta decisão como forma de exercício da sua independência, como estratégia de autonomização, para escapar a situações difíceis como pobreza ou violência no seio da família, ou porque o vêem como a única forma de poder ser sexualmente activos.
As limitações que resultam destas decisões são muitas vezes ignoradas ou não suficientemente ponderadas.
O Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) para quem trabalho e que co-lidera com a UNICEF o Programa Global para Acelerar a Ação para pôr Fim ao Casamento Infantil, tem mostrado que conflitos, deslocações, desastres naturais e alterações climáticas estão a exacerbar as determinantes do casamento infantil. Estas múltiplas crises, sobrepostas destroem os mecanismos de subsistância, as crianças deixam de poder ir à escola, aumenta a incerteza sobre o futuro, cresce a falta de esperança e a violência; o casamento infantil surge muitas vezes como uma estratégia de superação da urgência.
Sabemos que em contextos de fragilidade, o casamento infantil é quase duas vezes mais do que a média global.
Preocupante é também a ligação frequente e perigosa entre casamento infantil e gravidez adolescente, em corpos que amiúde não estão suficientemente desenvolvidos – as complicações resultantes da gravidez e do parto são a principal causa de morte nas raparigas entre os 15 e 19 anos. E como já o disse, em muitos contextos uma gravidez adolescente pode também levar a pressões para um casamento não desejado.
Há hoje um grande consenso internacional em torno da necessidade de eliminar o casamento infantil, mas uma em cada cinco meninas casa-se antes do seu 18º aniversário. A distância entre a lei e a prática aqui tem o rosto de muitas crianças cujas liberdades, oportunidades e escolhas são cortadas por esta prática. E mesmo nos países onde há uma lei a proibir o casamento infantil, a sua implementação nem sempre é rigorosa. Neste, como em muitos outros casos, o empoderamento das meninas é o único caminho que poderá trazer frutos – a sua voz e a sua capacidade de ação são os determinantes do seu futuro e das suas comunidades e nações.
E neste dia de São Valentim conforte-se com o facto de globalmente o casamento infantil estar a diminuir. Nos últimos 25 anos o progresso tem sido assinalável e na última década temos visto ventos de mudança muito auspiciosos em países com altas taxas de prevalência, mas o ritmo ainda é desesperadamente lento.
A COVID 19 teve um impacto desastroso nos nossos programas – estimamos que tenha gerado as condições para 13 milhões de casamentos infantis (entre 2020 e 2030) que de outro modo não aconteceriam.
E isso só nos pode impelir a mais investimentos e a esforços redobrados. Para que todas as pessoas possam escolher se, quando e com quem querem celebrar o amor e o consentimento.
O mundo foi, durante décadas, desenhado com um padrão implícito: o corpo masculino. Esse facto — tantas vezes invisível — continua a influenciar a ciência, a tecnologia, o design de produtos e até algumas políticas públicas.
Quando as equipas do Fundo das Nações Unidas para a População chegaram com clínicas móveis e serviços de proteção, Amina disse a uma das nossas parteiras: “Pensei que o mundo se tinha esquecido de nós.”
A mutilação genital feminina viola direitos fundamentais, incluindo o direito à saúde, à vida, à integridade física e mental e à ausência de tortura. Além disso, essa prática perpetua normas sociais nocivas, que devem ser desafiadas e erradicadas.
Em meados deste ano, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados dizia-nos que o número de pessoas deslocadas à força rondava os 123 milhões; em 2023 cerca de 612 milhões de mulheres e raparigas viviam a menos de 50 quilómetros de pelo menos um dos 170 conflitos armados.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.