A fome do Luís Dias
João Paulo Batalha
12 de maio

A fome do Luís Dias

Um homem solitário, em greve de fome em frente ao Palácio de Belém, é o retrato assustador da violência brutal do Estado sobre os cidadãos.

À hora a que ler estas linhas, Luís Dias, cidadão português de 48 anos, terá entrado no terceiro dia de greve de fome frente ao Palácio de Belém, implorando pela atenção do Presidente da República.

Na semana em que discutimos Odemira e em que o secretário de Estado João Galamba quis mostrar quem manda (no bom estilo de animal feroz que aprendeu com José Sócrates), é bom conhecer a história de Luís Dias, porque ela nos ensina que o Estado que fecha os olhos às redes de imigração ilegal em Odemira, ao mar de estufas que agride a paisagem protegida, à voragem de recursos da agricultura intensiva, é depois o mesmo Estado que aniquila pequenos agricultores na máquina trituradora da incúria, da negligência e da corrupção. Porque conheço esta história, que acompanho há anos com a estupefação e o desalento da impotência, partilho a fome do Luís Dias.

Luís Dias e Maria José Santos decidiram instalar-se no interior do país em 2013. Hoje até temos uma (invisível) ministra da Coesão Territorial para tentar convencer outros portugueses a fazer o mesmo, mas o Luís e a Maria José foram por sua conta. Venderam o que tinham para montar uma quinta de produção de frutos vermelhos na Zebreira, Idanha-a-Nova. Receberam um financiamento público que suportou parte do seu investimento de mais 500 mil euros. A produção tinha exportação assegurada: a Tesco, uma das principais cadeias de supermercados do Reino Unido, ia vender amoras da Zebreira. Era uma vida nova.

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