Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Catedrático da Universidade Lusófona
17 de setembro de 2026 às 09:34

O médico, o robô e a senhora presidente da UE

Pergunte-se a uma mulher à espera do resultado de um rastreio se prefere a resposta amanhã, dada por um médico apoiado por uma máquina, ou daqui a um mês, dada por um médico sozinho. Não hesitará.

"Não quero que um robô me diga se tenho ou não cancro." A frase, dita por Ursula von der Leyen no discurso do Estado da União Europeia (EU), esta quarta-feira, em Estrasburgo, tem tudo para correr bem: é curta, é humana e toca num medo que todos partilhamos. E é, precisamente por isso, um bom resumo do problema europeu com a inteligência artificial.

Comecemos pelo que a presidente da Comissão disse de acertado. Quer que o seu médico tenha "acesso instantâneo à IA e a todos os dados necessários" para decidir melhor. Reconheceu que a mamografia assistida por IA deteta mais cancros, e mais cedo. Ninguém sensato discorda. Von der Leyen, médica de formação, sabe que um diagnóstico não é apenas um resultado: é uma conversa, uma decisão partilhada, por vezes a pior notícia da vida de alguém. Ninguém a quer receber de um ecrã.

Mas repare-se no truque retórico. Ninguém está a propor que um robô substitua o oncologista na consulta. O espantalho é conveniente: permite parecer prudente sem responder à pergunta que interessa. E essa é outra: se um algoritmo lê uma mamografia melhor do que um radiologista exausto ao fim de um turno de doze horas, quem é que a Europa protege quando insiste que o humano tem sempre a última palavra? O doente ou a profissão? A pergunta é incómoda, mas é a única que conta.

A "agência humana" que von der Leyen invocou é um princípio bonito. Mas, na saúde, o que importa ao doente é o cancro detetado a tempo, não a natureza de quem o detetou. Um exame que fica semanas à espera de ser lido por falta de especialistas, numa fila que o SNS conhece bem, não é mais humano. É só mais lento. Pergunte-se a uma mulher à espera do resultado de um rastreio se prefere a resposta amanhã, dada por um médico apoiado por uma máquina, ou daqui a um mês, dada por um médico sozinho. Não hesitará. Se a máquina fizer a triagem e libertar o médico para aquilo que só ele sabe fazer, que é explicar, acompanhar e consolar, isso não é desumanizar a medicina. É devolver-lhe tempo.

Há ainda um padrão que convém não ignorar. A Europa é campeã mundial a regular aquilo que não inventa. Temos o AI Act e teremos em novembro, promete Bruxelas, novas "iniciativas" para a saúde, os transportes, a indústria e a defesa. Os modelos que estão a mudar o mundo, entretanto, continuam a nascer na Califórnia e em Pequim. No mesmo discurso, a presidente pediu que se abrande o desenvolvimento dos modelos que se aperfeiçoam a si próprios. Pode ter razão quanto aos riscos, até porque a ameaça de ciberataques é real. Mas é difícil ditar o ritmo de uma corrida em que não se é concorrente.

Nada disto significa que a prudência seja um erro. A medicina tem boas razões para desconfiar de promessas tecnológicas, e a responsabilidade por um erro de diagnóstico tem de recair sobre alguém com nome e cédula profissional. Mas prudência não é medo, e política pública não se faz com frases pensadas para os títulos dos jornais.

O que se pedia à líder europeia não era a garantia de que nenhum robô nos dará más notícias. Era uma estratégia para que os hospitais europeus, incluindo os portugueses, tenham acesso às melhores ferramentas, com dados de qualidade, regras claras de responsabilidade e profissionais preparados para as usar. Isso, sim, salvaria vidas.

Porque, no fim, a pior notícia não é ouvir de uma máquina que se tem cancro. É ouvi-la de um humano, tarde demais.

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