Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Universitário
09 de fevereiro de 2026 às 07:00

Europa deve adotar a estratégia da China face aos Estados Unidos

Num contexto em que Washington não hesita em utilizar tarifas e instrumentos económicos para defender os seus interesses, Bruxelas não pode ignorar a assimetria existente no domínio digital.

A relação transatlântica foi, durante décadas, um dos pilares da estabilidade económica europeia. Contudo, quando os Estados Unidos recorrem de forma recorrente a tarifas e medidas protecionistas dirigidas a setores estratégicos europeus — da indústria automóvel às tecnologias verdes — torna-se evidente que o comércio internacional deixou de ser apenas uma questão de eficiência económica, passando a afirmar-se como instrumento de poder, soberania e influência geopolítica. Perante este cenário, a União Europeia não pode continuar a responder apenas com diplomacia cautelosa e ajustamentos técnicos. É imperativo pensar e agir estrategicamente.

A China oferece um exemplo claro de como a soberania tecnológica pode ser utilizada como instrumento de política económica. Ao limitar ou impedir a presença de várias plataformas digitais estrangeiras, como WhatsApp, Facebook, Instagram ou Gmail, e ao fomentar ecossistemas próprios, Pequim criou espaço para o desenvolvimento de gigantes nacionais como WeChat, Kimi, DeepSeek ou TikTok. Esta opção permitiu consolidar um mercado interno robusto, reter dados estratégicos dentro das suas fronteiras e reduzir significativamente a dependência tecnológica face aos Estados Unidos. Independentemente das diferenças políticas e institucionais entre a União Europeia e a China, a lição estratégica é clara: quem controla as infraestruturas digitais controla uma parte substancial do poder económico contemporâneo.

A Europa, pelo contrário, apresenta um grau de dependência digital extremamente elevado relativamente a empresas norte-americanas. Motores de pesquisa, redes sociais, serviços de correio eletrónico, plataformas de comunicação e ferramentas de inteligência artificial utilizadas na Europa são, na sua maioria, controlados por grupos sediados nos Estados Unidos. Esta dependência fragiliza a autonomia europeia, expõe dados sensíveis a jurisdições externas e limita a margem de manobra política quando surgem tensões comerciais. Num contexto em que Washington não hesita em utilizar tarifas e instrumentos económicos para defender os seus interesses, Bruxelas não pode ignorar a assimetria existente no domínio digital.

Alguns líderes europeus já começaram a dar sinais claros de que o caminho pode ser outro. O Presidente francês, Emmanuel Macron, tomou a decisão de proibir a utilização, na Administração Pública francesa, de plataformas como Google Meet, Zoom e Microsoft Teams, impondo a adoção de uma solução francesa equivalente, a Visio. Mais do que uma decisão técnica, trata-se de uma afirmação política: os dados do Estado francês devem estar sob controlo francês e europeu. Este gesto demonstra que a soberania digital não é um conceito abstrato, mas uma opção concreta de política pública.

Os recentes passos da União Europeia no reforço de acordos de comércio livre com a Índia e com países da América Latina constituem sinais positivos de diversificação estratégica. Contudo, este movimento deve ser acompanhado por uma política de reciprocidade mais assertiva. Se determinados produtos europeus enfrentam barreiras no mercado norte-americano, a Europa deve ponderar medidas equivalentes. Entre elas, poderá estar a restrição ou o condicionamento da comercialização de algumas plataformas digitais dos Estados Unidos, particularmente nos domínios da inteligência artificial, redes sociais, comunicação, pesquisa e correio eletrónico, incentivando simultaneamente o desenvolvimento de alternativas europeias robustas e competitivas.

Não se trata de defender o isolamento económico nem de promover um conflito transatlântico. Trata-se de reconhecer que o comércio global é, cada vez mais, um instrumento estratégico. A criação de um verdadeiro mercado único digital europeu, apoiado por investimento consistente em investigação, inovação e infraestruturas próprias, permitiria à União Europeia reforçar a sua posição negocial e proteger o seu tecido económico. A soberania digital é hoje tão relevante quanto a soberania energética ou industrial.

Se a Europa pretende preservar a sua competitividade, proteger o emprego qualificado e afirmar-se como um ator autónomo no sistema internacional, terá de abandonar uma postura excessivamente dependente e assumir uma estratégia mais firme e equilibrada. A experiência chinesa demonstra que a proteção estratégica de setores críticos pode gerar capacidade interna e influência global. A União Europeia dispõe de escala, talento científico e capacidade financeira para seguir um caminho semelhante. O que falta não é potencial, mas vontade política.

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