Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Universitário
26 de janeiro de 2026 às 10:59

Proibir a IA nas universidades é proibir o futuro

A Inteligência Artificial não é um capricho tecnológico nem uma moda passageira. É uma revolução estrutural comparável à chegada da internet, dos motores de busca, do e-mail, do software estatístico, das bibliotecas digitais e dos smartphones.

Há manifestos que nascem do medo. Outros, da preguiça. E alguns, ainda mais perigosos, nascem da ilusão de que é possível travar a História com proibições administrativas e indignações públicas. O chamado “Manifesto contra a Inteligência Artificial”, promovido por um conjunto de docentes do ensino superior em Portugal e amplificado pela comunicação social, pede a proibição da utilização de IA nas universidades, invocando, entre outras coisas, que os alunos estão a ser transformados em “cretinos digitais”. A expressão é forte, quase insultuosa, e serve bem à lógica do choque mediático. Mas a pergunta séria é outra: uma universidade deve reagir à inovação com censura ou com liderança?

A Inteligência Artificial não é um capricho tecnológico nem uma moda passageira. É uma revolução estrutural comparável à chegada da internet, dos motores de busca, do e-mail, do software estatístico, das bibliotecas digitais e dos smartphones. Em todas essas mudanças houve resistência, moralismo e previsões apocalípticas. E, no entanto, o mundo avançou. Não porque a tecnologia fosse “boa” por natureza, mas porque as pessoas aprenderam a usá-la, a enquadrá-la e a transformá-la em produtividade, conhecimento e valor. A IA é mais uma dessas revoluções, com uma diferença: é mais rápida, mais abrangente e mais inevitável. E é precisamente por isso que a proibição é a pior resposta possível.

Proibir a IA no ensino superior é inútil, injusto e intelectualmente incoerente. É inútil porque a IA já está no bolso dos estudantes, integrada em ferramentas do quotidiano, nos sistemas operativos, nos browsers, nas plataformas de escrita e até na pesquisa. Mesmo que uma instituição a proíba formalmente, ela continuará a ser usada — apenas passará a ser usada às escondidas, sem enquadramento pedagógico e sem supervisão. É injusto porque penaliza os alunos mais honestos e, muitas vezes, os mais vulneráveis: os que precisam de apoio para estruturar ideias, melhorar redação, traduzir conceitos, organizar bibliografia ou superar dificuldades de aprendizagem. A IA pode ser um instrumento de inclusão académica quando bem usada. Proibi-la é empurrar para a clandestinidade quem mais precisa de apoio e premiar quem a usará sem escrutínio. E é incoerente porque o ensino superior não existe para proteger os alunos do mundo real; existe para os preparar para ele. Uma universidade que proíbe uma tecnologia transformadora em vez de a estudar, discutir e integrar está a abdicar da sua missão. Seria como ter proibido o Excel porque os alunos deixariam de saber fazer contas, ou ter proibido a internet porque já ninguém decoraria enciclopédias.

O problema não é a ferramenta. O problema é o uso. E há uma verdade desconfortável que muitos evitam: a IA não está a destruir o ensino superior; está a expor as suas fragilidades. Se um aluno consegue “fazer” uma cadeira inteira com prompts e respostas automáticas, então é legítimo perguntar se a avaliação mede conhecimento ou mede apenas a capacidade de produzir texto. É legítimo perguntar se os trabalhos pedem pensamento crítico ou apenas “enchimento” com referências. É legítimo perguntar se as disciplinas promovem aprendizagem real ou se se limitam a reproduzir burocracias académicas em formato digital. A IA é um espelho cruel, porque torna evidente o que já estava mal: avaliações que confundem quantidade com qualidade, tarefas que recompensam a repetição e sistemas que se iludem com formalismos.

A resposta madura não é proibir. É elevar a exigência. É aqui que os docentes e as instituições têm de fazer o que sempre foi esperado de uma universidade: adaptar-se e liderar. Isso implica mudar práticas e estratégias, não apenas repetir discursos indignados. A avaliação tem de passar a medir raciocínio e não apenas texto bem escrito. Trabalhos finais devem ser defendidos, explicados, discutidos. A oralidade, a argumentação e a capacidade de responder a perguntas são formas simples e eficazes de separar autoria intelectual de mera produção automática. O processo deve passar a contar: versões intermédias, decisões metodológicas justificadas, reflexão crítica sobre limitações e escolhas. A aprendizagem não pode ser um “produto final” entregue num PDF; tem de ser um percurso acompanhado.

Ao mesmo tempo, é essencial que existam regras claras e realistas. Não se pode continuar a fingir que a IA não existe, nem tratar o tema como um tabu. É perfeitamente possível definir orientações por unidade curricular e por tipo de tarefa: permitir IA para brainstorming, estruturação e revisão linguística; permitir apoio à programação, desde que o aluno explique e compreenda o código; exigir declaração de uso quando a ferramenta foi utilizada; e ser absolutamente intolerante com fraude, falsificação de dados, invenção de fontes ou manipulação de resultados. A ética académica não desaparece com a IA — torna-se mais importante. E a universidade deve ser o lugar onde essa ética é ensinada e aplicada, não o lugar onde se proíbe para não ter de pensar.

Também os alunos têm responsabilidades novas. Usar IA não pode ser sinónimo de “terceirizar” o pensamento. A IA pode e deve ser usada como tutor, como apoio, como ferramenta de clarificação e treino, mas nunca como substituto de compreensão. Quem não consegue explicar o que entrega não aprendeu, apenas entregou. E, num mercado de trabalho cada vez mais competitivo e automatizado, isso será pago caro. A regra deveria ser simples: tudo o que a IA sugere tem de ser validado, confirmado e criticado. A IA é um ponto de partida, não um ponto de chegada. E a transparência deve ser a nova norma: declarar como se usou, para quê, com que limites e o que foi revisto. Quem esconde o uso de IA não é moderno; é apenas desonesto.

Há ainda um ponto essencial que os defensores da proibição parecem ignorar: a universidade não está a competir contra a IA; está a competir contra outras universidades e outros países que já a estão a integrar. Enquanto uns discutem proibições, outros ensinam literacia de IA, métodos de validação, pensamento crítico aplicado, engenharia de prompts, ética de dados, e desenvolvem novas formas de investigação e aprendizagem. O resultado é previsível: quem proíbe fica para trás. E quem fica para trás perde estudantes, perde reputação e perde relevância.

O ensino superior tem, portanto, uma escolha clara. Pode reagir à mudança com medo e proibição, fingindo que assim preserva a qualidade. Ou pode reagir com inteligência, adaptando avaliação, reforçando exigência, ensinando competências e regulando com transparência. A IA é uma revolução tecnológica como tantas outras. Como em todas as revoluções, o desafio não é a tecnologia. O desafio somos nós. E, no fim, a pergunta que realmente importa é esta: queremos universidades que ensinam o futuro, ou universidades que proíbem o presente? Porque a IA não vai substituir professores. Mas professores e instituições que não se adaptam serão inevitavelmente ultrapassados por quem souber liderar a mudança.

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