De comer "pão com passas" na infância a líder temido e implacável: quem foi Ali Khamenei
Líder Supremo do Irão morreu durante os bombardeamentos dos EUA e Israel em Teerão.
Ali Khamenei, um dos homens mais poderosos do Médio Oriente, morreu durante os ataques levados a cabo por Israel e os Estados Unidos este sábado. Líder Supremo do Irão, Khamenei dominou o país durante mais de três décadas, mantendo-se firme no poder, não obstante a pressão internacional (siga aqui todos os pomenores sobre os ataques, ao minuto).
Sob a sua liderança o Irão tornou-se uma potência regional perigosa. O enriquecimento de urânio - para o suposto desenvolvimento de armas nucleares - sempre fez com que o mundo ocidental olhasse com desconfiança para o país, que Khamenei liderava com mão de ferro, aniquilando todas as ameaças ao seu poder sem olhar a contemplações. Incluindo externamente, ao manifestar posições firmes contra países como Estados Unidos e Israel.
Ali Khamenei nasceu na cidade de Mashhad, no nordeste do Irão, em 1939. Era o segundo de oito filhos de uma família extremamente religiosa e modesta. Sobre a sua infância chegou a dizer que foi "pobre, mas piedosa", comia apenas "pão e passas".
Com uma educação dominada pelo estudo do Alcorão, foi nomeado clérigo aos 11 anos. E fazendo uso do dom da oratória, Khamenei tornou-se crítico do Xá, Mohammad Reza Pahlavi, tendo pagado por isso: viveu na clandestinidade, foi preso seis vezes pela polícia secreta do Xá e até mesmo torturado.
Depois da revolução islâmica de 1979, que depôs o monarca, serviu no Conselho da Revolução Islâmica, grupo conservador formado pelo ayatollah Ruhollah Khomeini para governar ao lado do Governo interino. Foi nomeado por Khomeini líder da oração de sexta-feira em Teerão e aos poucos foi entrando na nova liderança do país.
Em 1981 escapou a uma tentativa de assassinato. Um grupo dissidente escondeu uma bomba dentro de um gravador, que explodiu enquanto Khamenei dava uma palestra. Ficou gravemente ferido, sofreu lesões pulmonares e perdeu permanentemente a capacidade de utilizar o braço direito.
No mesmo ano o presidente Mohammad-Ali Rajai foi assassinado e Khamenei candidatou-se para o suceder no cargo. Ruhollah Khomeini controlava os candidatos e Khamenei acabou por ser eleito presidente com 97 por cento dos votos.
De presidente a Líder Supremo
Com a morte de Ruhollah Khomeini aos 86 anos, em 1989, foi escolhido pelo conselho de clérigos como novo Líder Supremo. "Sou um indivíduo com muitas falhas e deficiências, e verdadeiramente um seminarista menor", admitiu Khamenei no seu primeiro discurso. "No entanto, foi colocada uma responsabilidade sobre os meus ombros e usarei todas as minhas capacidades e toda a minha fé no Todo-Poderoso para ser capaz de suportar essa pesada responsabilidade."
Sob a sua liderança o Irão ficou cada vez mais isolado, assolado pela corrupção e por numa crise económica que poucas ou nenhumas perspetivas de futuro deixava a uma população jovem e a uma classe média estrangulada.
Embora vivesse cercado por inimigos, Khamenei conseguiu mantê-los à distância durante muito tempo. Depois de se tornar a principal autoridade política e religiosa do país, o Irão evitou grandes ataques diretos por parte dos seus adversários durante mais de três décadas. O regime consolidou-se com a formação do "Eixo da Resistência", uma rede informal de grupos aliados espalhados por toda a região, mas com um inimigo predileto: Israel. O líder Supremo pediu repetidamente a eliminação do país, chegando a apelidá-lo de "tumor cancerígeno".
Para os seus apoiantes, Khamenei era um líder firme e destemido, que transcendia a mera política e inspirava devoção religiosa. Para os seus críticos, iranianos e estrangeiros, era um ditador temido, empenhado em esmagar aqueles que se opunham às suas ideias, mantendo país isolado.
Internamente a oposição era aniquilada. Em 1999 conseguiu reprimir os protestos estudantis; dez anos mais tarde, uma revolta popular motivada por uma alegada fraude nas eleições presidenciais acabou com manifestantes atingidos por gás de pimenta, espancados e baleados.
Em 2019, quando a escalada dos preços dos combustíveis resultou em protestos de rua, Khamenei cortou a internet durante vários dias, para impedir marchas ilegais. Consta que também houve fuzilamentos...
São também conhecidas as suas disposições relativamente às mulheres. As que fizeram campanha contra o uso do hijab foram presas, com uma advogada de direitos humanos a ser condenada a 38 anos de prisão e 148 chibatadas.
Já em 2022, tornou-se globalmente conhecido o caso de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos que morreu sob custódia policial acusada de não usar o hijab de forma adequada.
Ali Khamenei raramente viajava para o estrangeiro. Consta que vivia num condomínio no centro de Teerão com a mulher, seis filhos e muitos netos. Morreu assassinado, aos 86 anos, às mãos dos seus maiores inimigos...