Portugueses nas revoltas da Catalunha

Ricardo Silva 28 de janeiro de 2018

Estiveram de lados opostos das trincheiras: enquanto anarquistas como Germinal Sousa e Manuel Firmo combateram em defesa dos catalães, legionários como Almeida e Joaquim Silva ajudaram a sufocar as revoltas. A história de um conflito que está outra vez nas ruas.

A escuridão da noite ainda não se dissipara, mas a bordo do Lister já ninguém dormia e a azáfama era grande. No convés amontoavam-se centenas de jovens que observavam atentamente o castelo de Montjuic (em Barcelona), e no porto já era visível a banda que aguardava pelo seu desembarque. A bordo vinham cidadãos dos quatro cantos da Europa: alemães, espanhóis e italianos, além de polacos, russos, turcos... e, como não podia deixar de ser, portugueses. Um deles chamava-se Almeida e era um homem com um aspecto peculiar.

A cara estava curtida por muitas horas passadas sob o sol do deserto de Marrocos e o olhar endurecido pelas inúmeras mortes que já testemunhara. Não era a aparência típica dos visitantes que vinham a Barcelona para passear e comer tapas, mas o semblante do português não destoava em nada de quem o rodeava – o Lister não era um navio de cruzeiro e aqueles jovens não eram turistas. O português era um dos legionários da III Bandeira que o governo de Madrid mobilizara para esmagar uma revolta que começara com greves e tumultos, e ameaçava converter-se num primeiro passo para a independência da Catalunha.

Foi em Outubro de 1934, e, além de Barcelona, também as Astúrias ficaram a ferro e fogo quando revolucionários e militares se enfrentaram a tiro pelas ruas. Nas Astúrias as alianças operárias conseguiram unir-se e declarar a República Socialista Asturiana, enquanto na Catalunha a Generalitat proclamava o Estado Catalão seguindo uma lógica federativa.

Terror e hinos de morte
Madrid não hesitou em utilizar a unidade mais temível do seu exército para esmagar de forma implacável os rebeldes catalães e asturianos, trazendo para Espanha as bandeiras legionárias que espalhavam o terror em Marrocos. A Legião era conhecida por aceitar qualquer mercenário estrangeiro que aguentasse a brutal instrução dada nos seus quartéis, e os portugueses eram o grupo mais numeroso logo a seguir aos espanhóis. O legionário Almeida era um desses portugueses, e após voltar a Portugal narrou de forma detalhada os acontecimentos trágicos daquelas jornadas, escrevendo um livro de memórias que a SÁBADO consultou na Biblioteca Nacional. Logo após o desembarque "um silêncio de morte reinava por toda a parte. No cais brilhavam os instrumentos da banda de música que nos esperava, juntamente com o General Batet, Governador Militar de Barcelona", seguindo-se um curto discurso do seu comandante que terminou de forma esclarecedora: "Vindes para salvar Espanha do abismo em que a lançaram os maus espanhóis!" Do cais começaram a marchar na direcção do casario e "pela primeira vez ouviu-se na Catalunha essa profissão de renúncia e desprezo pela morte" quando os legionários começaram a cantar o seu hino, O Noivo da Morte.

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