E se os mapas que conhece desde a escola não representassem corretamente o mundo? Ao que parece, África, por exemplo, é muito maior do que aparenta. Foi para corrigir estas distorções que a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que promove uma representação mais fiel das dimensões reais dos continentes.
A Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou na sexta-feira (4) uma resolução que procura mudar a forma como o mundo é representado nos mapas. O texto foi aprovado com 164 votos a favor, um voto contra dos Estados Unidos, e seis abstenções: Estónia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia.
Mapa do Mundo/ AP
Apresentada por Togo (país da África Ocidental) e apoiada pela União Africana (UA), a resolução pretende promover uma representação mais real das dimensões dos continentes nos mapas, isto porque no mapa-múndi criado por Gerardus Mercator, em 1569, África surge aparentemente mais pequena quando comparada com territórios como a Gronelândia ou o Canadá.
Tal acontece porque África é atravessada pelo Equador, enquanto as regiões mais próximas dos polos tendem a aparecer ampliadas na projeção de Mercator (o mapa-múndi criado por Mercator). Como resultado, a Gronelândia parece ter uma dimensão semelhante à de África, quando, na realidade, é 14 vezes mais pequena. Além disso, a América Latina, a Índia e outras regiões equatoriais surgem mais pequenas do que realmente são.
O mapa de 1569 desenvolvido por Mercator destinava-se a facilitar a navegação marítima, mas acabou por introduzir distorções significativas nas áreas dos continentes. Ainda assim, continua a ser amplamente utilizada em materiais educativos, atlas, plataformas digitais e meios de comunicação.
Neste sentido, a ONU aprovou uma resolução que incentiva a a adoção da projeção Equal Earth sempre que seja importante representar as áreas terrestres de forma proporcional à sua dimensão real.
Segundo a organização, a medida por poderá ajudar a moldar a forma como as pessoas observam o mundo. As Nações Unidas defendem que a projeção de Mercator, ainda hoje amplamente difundida, pode perpetuar uma visão desequilibrada das diferentes regiões do planeta, podendo ter potencias impactos cognitivos, educacionais, culturais ou até mesmo geopolíticos.
A resolução defende, por isso, uma representação mais próxima da realidade. Para o ministro dos Negócios Estrangeiros de Togo, Robert Dussey, trata-se de "verdade científica".
“Um mapa nunca é neutro, molda as perceções, influencia a compreensão dos lugares e dos povos e pode, por vezes desde os primeiros anos de escolaridade, perpetuar representações que não correspondem à realidade geográfica”, afirmou antes da votação, rejeitando a ideia de que África estivesse a pedir um tratamento preferencial. “África apenas pede que a sua realidade, as suas aspirações e a sua contribuição para o sistema internacional sejam levadas devidamente em consideração.”
Como alternativa, existe a "Projeção Equal Earth" (ou "Projeção da Terra Igual"), desenvolvida para preservar de forma mais rigorosa as proporções dos continentes. As Nações Unidas pediram que os governos, escolas, organizações internacionais e empresas de tecnologia adotem este modelo sempre que a escala real dos territórios seja relevante. A recomendação não implica, contudo, o abandono imediato do mapa-múndi de Mercator.
A resolução insere-se na campanha "Correct The Map" ("Corrigir o Mapa") - uma iniciativa lançada em 2025 pelas organizações Africa No Filter e Speak Up Africa. Esta não é, porém, a primeira vez que estas reivindicações são feitas. O debate sobre as limitações da projeção de Mercator já existe há várias décadas, mas voltou recentemente a ganhar destaque.
Apesar da ampla aprovação da proposta, a iniciativa encontrou resistência por parte dos Estados Unidos. "Em vez de se concentrarem em questões reais de paz, prosperidade ou boas relações, este órgão está a debater mapas [de outro] século", criticou o representante norte-americano.
Também a Ucrânia, que optou pela abstenção, manifestou dúvidas. Segundo o representante ucraniano, a projeção em causa identifica como território russo áreas da Ucrânia atualmente ocupadas pela Rússia, o que considera constituir uma violação do direito internacional.
"Por essa razão, e uma vez que o projeto de resolução incentiva os Estados-Membros a adotarem e divulgarem a projeção cartográfica Equal Earth, estes têm de garantir que a sua aplicação seja plenamente coerente com os princípios, normas e diretrizes das Nações Unidas, da Carta e das resoluções sobre a integridade territorial e a soberania dos Estados", afirmou.
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