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Quem é Jimmy Lai, o magnata pró-democracia de Jong Kong condenado a 20 anos de prisão?

Débora Calheiros Lourenço 09 de fevereiro de 2026 às 22:14

Em dezembro o empresário de 78 anos já tinha sido condenado por conspiração.

Jimmy Lai, ex-magnata dos meios de comunicação em Hong Kong que se tornou um ativista pró-democracia e crítico de Pequim foi condenado esta segunda-feira a vinte anos de prisão, a pena mais longa já aplicada sob a lei de segurança nacional imposta pela China.  
Foto AP/Kin Cheung, Arquivo
Em dezembro já tinha sido condenado a prisão perpétua por conspiração por colaborar com forças estrangeiras com o objetivo de colocar em risco a segurança nacional e por publicar artigos que apelavam à desobediência. Agora os juízes referiram que reduziram a pena porque reconheceram que a idade, 78, o estado de saúde e o confinamento solitário de Lai iam tornar a sua vida na prisão mais dura do que a dos outros presos.   Todo o julgamento suscitou preocupações sobre o declínio da liberdade de imprensa no que já foi considerado um bastião asiático da independência dos meios de comunicação, no entanto o governo tem garantido que o caso nada tem a ver com liberdade de imprensa uma vez que acusa os réus de utilizarem o jornalismo como pretexto para cometer crimes que prejudicam a China e Hong Kong. O jornal de Lai, Apple Daily foi fechado em 2021 depois de alguns dos seus principais jornalistas terem sido detidos.  

Fugiu da China e tem  “um ódio feroz" ao Partido Comunista Chinês

Lai fundou o Apple Daily, em 1995, conhecido pelas reportagens críticas aos governos de Hong Kong e de Pequim e desde então que passou a ser considerado um herói pelo movimento pró-democracia. Fazia duras críticas ao Partido Comunista Chinês segundo o Supremo Tribunal, nutria mesmo “um ódio feroz” e tinha “uma obsessão em mudar os valores do partido para os do mundo ocidental”.   Foi aos doze anos que fugiu da China – num barco de pesque que partilhou com cerca de 80 migrantes - e se mudou para Hong Kong, que ainda era uma colónia britânica, na nova cidade encontrou uma terra de oportunidades onde conseguiu ter sucesso e nunca esqueceu o que a avó lhe pedia: “Tens de te tornar um homem de negócios, mesmo que vendas apenas amendoins temperados”. Antes disso já o seu pai se tinha mudado para a cidade costeira e a sua mãe foi enviada para um campo de trabalhos forçados.  Em Hong Kong foi contratado por uma fábrica de luvas e foi nesse trabalho que um dos seus colegas o ensinou a falar inglês, com pouco mais de vinte anos já administrava uma fábrica do setor têxtil e aos 27 abriu a sua primeira fábrica, a Comitex Knitters. Em 1981 fundou a cadeia de lojas de roupas Giordano, que se tornou pioneira no segmento de fast-fashion e chegou a vender camisolas com fotos dos líderes de protestos pró-democracia e slogans anti-Pequim.  As críticas ao regime fizeram com que, entre 1994 e 1996, a loja principal da Giordano em Pequim e 11 franquias em Xangai fechassem pelo que Lei decidiu vender as suas ações e renunciar ao cargo de presidente do conselho. "Se eu continuar apenas a ganhar dinheiro, isso não significa nada para. Mas se entrar no ramo da imprensa, poderei fornecer informação, que é escolha, e escolha é liberdade", referiu num documentário de 2007 sobre o que motivou a sua escolha. 
O Movimento dos Guarda-Chuvas, 2014, desencadeado pela recusa de Pequim em permitir eleições totalmente livres em Hong Kong, levou manifestantes a ocuparam os principais distritos comerciais da cidade durante 79 dias. Lai comparecia diariamente entre as 9h00 às 17h00, sem se deixar intimidar.   O movimento terminou quando o tribunal ordenou a desocupação dos locais de protesto, mas o governo não cedeu. Cinco anos depois, em 2019, Hong Kong voltou a entrar em erupção, desta vez devido a um plano que permitiria a extradição para a China. O que começou como marchas pacíficas tornou-se cada vez mais violento, transformando a cidade num campo de batalha durante seis meses. Manifestantes vestidos de preto atiraram tijolos e coquetéis Molotov, invadiram o parlamento e atearam fogo, a polícia de choque respondeu com gás lacrimogéneo balas de borracha, canhões de água e munição real.  Lai esteve na linha de frente dos protestos e cumpriu 20 meses de prisão por participar de quatro assembleias não autorizadas, passado um ano detido. Durante este período a sua fé católica aprofundou-se, Lai passava seis horas do seu dia a rezar e desenhava Cristo.  

Reações internacionais à condenação

Claire Lai, filha do ativista, considerou esta segunda-feira que “se a sentença for executada, ele vai morrer como um mártir atrás das grades” enquanto o seu irmão considerou que o caso demonstra “a destruição total do sistema jurídico de Hong Kong e o fim da justiça”.   Seis ex-executivos do Apple Daily e dois ativistas também foram condenados na segunda-feira, com penas que variam de seis anos e três meses a 10 anos.  O caso está a ser bastante criticado por governos estrangeiros. Donald Trump, que também tem atacado a imprensa, disse com pediu a Xi Jinping que “considerasse a libertação” de Lai enquanto o primeiro-ministro do Reino Unido Keir Starmer relembro que Jimmy Lai é um cidadão britânico. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês considerou Jimmy Lai um dos principais responsáveis por uma série de atividades desestabilizadoras contra a China e pediu aos “países relevantes” que respeitem o Estado de Direito.   A União Europeia também condenou a sentença afirmando: "A UE deplora a severa pena de prisão de 20 anos imposta ao cidadão britânico e empresário dos media Jimmy Lai". Segundo o serviço diplomático do bloco europeu, "a UE reitera o seu apelo à libertação imediata e incondicional de Jimmy Lai, tendo também em conta a sua idade avançada e o seu estado de saúde".
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