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Hungria cada vez mais próxima da Rússia e dos EUA vai a votos depois de uma campanha marcada por acusações de manipulação

Débora Calheiros Lourenço 11 de abril de 2026 às 08:00

Diogo Alexandre Carapinha explica que “na Hungria as plataformas digitais são um campo de disputa”, o que torna o país mais permeáveis e interferências estrangeiras.

Não são todos os países que conseguem manter uma relação próxima com a Rússia, a China e os Estados Unidos, ao mesmo tempo que pertencem à União Europeia. Este papel parece mesmo estar guardado a um único líder, Viktor Órban - no poder ininterruptamente desde 2010 – que melhorou bastante as relações da Hungria com os Estados Unidos desde a chegada de Donald Trump.  Os cidadãos húngaros são este domingo chamados às urnas para eleições legislativas e o Fidesz de Viktor Órban aparece nas sondagens com apenas 39% das intenções de voto, enquanto o principal partido da oposição, o Tisza, liderado por , consegue 50% dos votos. No entanto, e apesar das estarem a mostrar um aumento gradual da oposição, ainda não é claro que a liderança de mais de quinze anos de Órban vá chegar ao fim. 

Manifestantes exibem bandeira da Hungria em frente à estátua de Rei André I, em Budapeste AP Photo/Denes Erdos

Os últimos anos de Órban foram marcados por uma relação tensa com a maior parte dos países da União Europeia, que piorou bastante desde o início da invasão russa à Ucrânia em fevereiro de 2022. Em dezembro do ano passado a Hungria bloqueou um empréstimo dos Estados-membros à Ucrânia, considerado pelos ucranianos como “essencial”. O avançou na quarta-feira que Órban acordou um plano de doze pontos para aproximar a Hungria da Rússia. O acordo terá sido alcançado durante uma viagem do ministro da saúde russo a Budapeste, em dezembro do ano passado. Segundo os documentos analisados pelo jornal, durante a reunião os aliados “abordaram questões atuais de comércio bilateral e cooperação energética, indústria, saúde, agricultura, construção e outras áreas de interesse mútuo, bem como na esfera cultural e económica”.  

A campanha eleitoral tem sido marcada por trocas de acusações de influência e manipulação externa. Enquanto na quarta-feira a Rússia acusou os países do Bloco de estarem a apoiar os opositores de Órban: “Muitas forças na Europa, muitas forças em Bruxelas, não gostariam que Órban ganhasse as eleições novamente” e no dia antes JD Vance tinha considerado “vergonhosa” a intervenção dos países da União Europeia das eleições, Peter Magyar tem acusado o Kremlin de apoiar a campanha de Órban fabricando vídeos e lançando campanhas de desinformação.  

Através das redes sociais, Peter Magyar referiu que as “fraudes eleitorais em curso, realizadas há meses pelo partido no poder, Fidesz, assim como atos criminosos, operações de inteligência, desinformação e notícias falsas, não podem mudar o facto de que o Tisza vai ganhar estas eleições”.  

Diogo Alexandre Carapinha, membro da plataforma EU CyberNet, explica à SÁBADO que “na Hungria, ainda mais do que em outros Estados, as plataformas digitais tornaram-se um campo de disputa mais real”. Isto porque “os meios de comunicação são muito próximos do governo e as redes sociais tornam-se muito importantes”.  

Quanto à interferência estrangeira nas eleições, Diogo Alexandre Carapinha refere que “o maior risco é manipular perceções, com operações de desinformações, ataques com fishing, ampliação de narrativas via bots e partilha de conteúdo manipulado”. Neste caso “a Rússia é o principal ator externo com narrativas anti-União-Europeia, anti-sanções à Rússia e pela defesa do nacionalismo”, enquanto a “China não tem tanto interesse na Hungria e opta por questões de ciber-espionagem olhando para os outros países europeus para perceber as tendências”. 

“Não estou a dizer que a eleição não é livre, mas o ambiente digital em que a eleição ocorre pode mudar a precessão do eleitorado sobre a realidade”, explica o também consultor de inteligência estratégica e análise de risco na VisionWare que refere os “muitos canais que se fazem passar por canais oficiais para amplificar uma narrativa”, os “atores internos pagos por atores externos para divulgarem narrativas e criares crises artificiais”, com recurso a deepfakes ou até casos de “manipulação estratégica e chantagem com técnicas de espionagem tradicionais onde alguém é colocado numa situação intima ou comprometedora, para espalhar boato num espaço público”. Peter Magyar tem referido ter sido alvo de muitos destes casos tendo existido, inclusive, um caso em que ameaçaram publicar um vídeo íntimo do candidato com a sua namorada. 

A realidade é que “a Agência da UE para a Cibersegurança coloca constantemente a Hungria como um dos alvos mais visados dentro da CCE das Ameaças Persistentes Avançadas (ATPs) estrangeiras no setor económico e político”. Ainda assim, e apesar da proximidade de Órban a Putin, Diogo Alexandre Carapinha afirma: “Não diria que Viktor Órban é um ativo pró-Kremlin, ele joga com os seus interesses, que muitas vezes são os interesses russos, mas isso não significa que a Hungria é um ativo parceiro da Rússia”.  

O especialista refere também que a Hungria tem “um histórico uso controverso de sistemas de spyware” como o caso Pegasus em 2016 durante o qual “o governo húngaro acabou por admitir ter utilizado o sistema para controlar jornalistas, advogados e ativistas”.  

De opositor à Rússia, a principal aliado dentro da União Europeia

Em 1989 pouco depois da queda da Cortina de Ferro o jovem Viktor Órban foi escolhido para discursar em homenagem a Imre Nagy, o primeiro-ministro que liderou a revolução húngara de 1956 contra os soviéticos e foi executado. Na altura referiu que “se acreditarmos na nossa própria força, somos capazes de pôr fim à ditadura comunista. Se tivermos suficientemente determinados, podemos obrigar o partido no poder a submeter-se a eleições livres”.  

Na altura Órban já era membro do Fidesz, mas o partido era, na altura, um partido liberal-centrista formado maioritariamente por estudantes e intelectuais anticomunistas. Nesse mesmo ano Órban passou a ser o líder do partido e em 1994 o Fidesz mudou abruptamente a sua posição ideológica tornando-se mais conservador e nacionalista.  

Em 1998 Viktor Órban venceu as eleições legislativas pela primeira vez numa altura em que ainda pedia aos húngaros para se separarem da Rússia. O primeiro-ministro húngaro manteve-se no poder até 2002, altura em que perdeu as eleições para os sociais-liberais.  

Órban manteve-se na oposição até 2010 e em 2004 a Hungria aderiu formalmente à União Europeia. Desde que regressou ao poder já alterou a constituição, reduziu os mecanismos democráticos de controlo e equilíbrio de puderes, enfraqueceu a liberdade de imprensa – desde 2010 a Hungria caiu do 23º lugar para o 68º lugar no ranking do- e independência judicial. Em 2014 assinou o primeiro acordo de cooperação com o Kremlin para a expansão da central nuclear de Paks II e seis meses depois assumiu o objetivo de construir um “estado iliberal” na Hungria citando a Rússia de Putin como exemplo.  

Desde então a relação entre Órban e Putin só se tem estreitado e exemplo disso é que no final do ano passado o primeiro-ministro húngaro garantiu ao líder russo: "A nossa amizade atingiu um momento que estou disposto a ajudar no que puder. Estou à vossa disposição para qualquer assunto em que possa ajudar ". 

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