Secções
Entrar

Acordo de paz entre EUA e Irão. Tudo o que se sabe - e o que falta saber

Débora Calheiros Lourenço 15 de junho de 2026 às 16:08

O acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irão será assinado na Suíça na sexta-feiro. Seguem-se mais sessenta dias de negociações para o memorando final.

Em poucas horas tanto as autoridades norte-americanas como as iranianas anunciaram o fim imediato da guerra no Médio Oriente e Donald Trump anunciou mesmo que “o petróleo voltará a fluir”.   O primeiro-ministro paquistanês, mediador das negociações, também referiu que “o acordo de paz entre os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão foi concluído”. No domingo Shehbaz Sharif avançou ainda que “a cerimónia oficial de assinatura será na sexta-feira, 19 de junho, na Suíça”.  

Foto AP/Hussein Malla

Apesar de ter sido anunciado o acordo, mantém-se incerto o que foi realmente acordado uma vez que o memorando de entendimento não foi publicado nem foram dados detalhes sobre alguns dos tópicos mais sensíveis, como o acesso ao Estreito de Ormuz, o programa nuclear iraniano e a ofensiva israelita no Líbano.  

Estreito de Ormuz

Na noite de domingo Trump pareceu não ter dúvidas de que o bloqueio do Estreito de Ormuz ia ser ultrapassado: “Autorizo integralmente a abertura do Estreito de Ormuz sem portagem e, simultaneamente, autorizo a remoção imediata do bloqueio naval dos Estados Unidos. Navios do mundo, liguem os vossos motores. Deixem o petróleo fluir”. No entanto, apenas uma hora depois, o líder norte-americano assumiu que a abertura está dependente da assinatura do acordo, ou seja, terá de esperar por sexta-feira.

Na sua declaração o primeiro-ministro paquistanês não mencionou o estreito e a agência de notícias estatal iraniana, a Mehr, informou que o memorando de entendimento prevê a reabertura do estreito em 30 dias.  

Os Estados Unidos têm reforçado que qualquer acordo de cessar fogo só será possível com a abertura do Estreito de Ormuz nos termos já discutidos com Omã. No mês passado Trump garantiu: “O estreito estará aberto a todos. Ninguém vai controlá-lo”.  

Apesar de nada parecer muito claro, os preços globais do petróleo baixaram nas horas seguintes ao anúncio, atingindo os níveis mais baixos desde o início de março - nos 83 dólares - apesar dos alertas de que a restauração da produção de energia no Golfo Pérsico pode demorar meses ou anos. A reabertura de instalações de petróleo e gás é um processo complexo, especialmente porque parte da infraestrutura da região foi danificada por ataques com drones.  

Líbano

Um dos principais pontos de discordância durante as primeiras negociações tem sido a inclusão, ou não, do Líbano no acordo.  

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Kazem Gharibabadi, foi inequívoco ao afirmar que o acordo alcançado no domingo cumpre este objetivo: “Foi declarado o fim permanente e imediato da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano”. Também Shehbaz Sharif foi claro ao referir nas redes sociais que “ambos os lados declararam o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano”.  

No entanto Trump não referiu o Líbano em nenhuma das suas publicações nas redes sociais sobre o acordo, concentrando-se quase exclusivamente no Estreito de Ormuz. O ministro da Segurança Nacional de Israel criticou a possibilidade de o acordo incluir o Líbano e garantiu que não “vincula” as operações israelitas.  

“O acordo de Donald Trump não nos vincula, não somos parte deste acordo. Não garante a nossa segurança. Não podemos aceitar nada menos do que o desmantelamento do Hezbollah. Não podemos recuar um único centímetro do território que os nossos soldados conquistaram e limparam da infraestrutura terrorista”, declarou Ben-Gvir.  

O acordo será assinado entre os Estados Unidos e o Irão pelo que é muito difícil que Israel fique obrigado a não continuar a seguir os seus objetivos militares. No entanto os ataques israelitas metem em causa o cessar-fogo, chegou até a ser anunciado que o acordo ia ser assinado no domingo, mas um ataque israelita a Beirute destruiu um prédio nos subúrbios que matou três pessoas “atrasou a assinatura”, segundo as declarações de Trump ao site de notícias Axios.  

Programa nuclear do Irão

O desenvolvimento do programa nuclear iraniano – o motivo pelo qual Donald Trump afirma ter iniciado os ataques contra o Irão - não parece ficar resolvido com o acordo. Ainda assim o presidente norte-americano referiu poucas horas depois do anúncio do fim das hostilidades, ao New York Times, que caso não fosse possível chegar a um acordo nuclear os ataques seriam retomados e garantiu que “o Irão jamais terá uma arma nuclear”.  

Altos funcionários paquistaneses partilharam com a Associated Press que as negociações vão continuar pelos próximos 60 dias.  

O Irão continua a defender que o seu programa nuclear é pacífico e não se comprometeu publicamente a abrir mão do urânio enriquecido que se acredita estar enterrado sob as instalações nucleares gravemente danificadas pelos ataques do ano passado.  

O líder norte-americano enfrenta pressão política interna para garantir um acordo que garanta o fim do programa nuclear do Irão.  

Sanções

Os Estados Unidos concordaram em não impor novas sanções ao Irão enquanto não for alcançado um acordo final e, depois desse acordo final ser alcançado, todas as sanções impostas pelos Estados Unidos e pelas Nações Unidas serão gradualmente levantadas.  

Os Estados Unidos aceitam também libertar 25 mil milhões de dólares em ativos iranianos que estão atualmente bloqueados, através de transferências diretas de dinheiro para o Irão, da cooperação com outros estados da região e de linhas de financiamento com crédito.  

Artigos Relacionados
Artigos recomendados
As mais lidas