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15 anos depois de Fukushima UE quer apostar no nuclear, mas em Portugal o tema continua a dividir peritos

Renata Lima Lobo 11 de março de 2026 às 07:00

Com a crise energética a comprometer a soberania europeia, Ursula von der Leyen considera que o abandono progressivo da energia nuclear um "erro estratégico". E anuncia um apoio ao investimento privado.

A 11 de Março de 2011, um tsunami galgou as paredes de contenção da Central Nuclear de Fukushima, no Japão, causando um dos maiores desastres nucleares da história. Não houve vítimas mortais causadas pela radiação, mas morreram mais de 400 pessoas no processo de deslocamento dos 160 mil residentes na região, muitos ainda hoje a viver em locais temporários. Se o tema da energia nuclear nunca foi pacífico, particularmente em Portugal onde nunca chegou a avançar, na Europa acabou por ditar um desinvestimento nesta área energética e, consequentemente, planos para o encerramento de centrais nucleares.

Ursula von der Leyen, na Cimeira de Energia Nuclear LUSA_EPA

No entanto, a atual crise energética alimentada pelas guerras do Irão e da Ucrânia, levou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a admitir que a redução do setor nuclear da Europa . Esta terça-feira, num discurso durante a Cimeira de Energia Nuclear, a líder europeia alemã considerou que a dependência “total das importações caras e voláteis” dos combustíveis fósseis coloca a Europa numa posição desvantajosa, criticando a redução da “quota da energia nuclear” em vários países europeus, nomeadamente na Alemanha quando Merkl era chanceler e Von der Leyen era Ministra do Trabalho . “Acredito que foi um erro estratégico para a Europa virar as costas a uma fonte de energia fiável e acessível com baixas emissões”, disse na cimeira. Apesar de a União Europeia não financiar projetos ligados à energia nuclear, por não haver consenso entre os 27 Estados membros, a presidente da Comissão afirmou que a Comissão Executiva iria oferecer uma garantia de 200 milhões de euros para investimentos privados em tecnologias nucleares inovadoras.

Nuclear? Sim.

"Se queremos energia, sem envenenar o ar, temos o calor do sol, o vento e a força do mar." O tema “Nuclear não, obrigado”, escrito por Luís Pedro Fonseca, tornou-se em 1982 num dos hinos de Lena d’Água e do movimento anti-nuclear em Portugal. Como alternativa, a letra enumerava uma série de energias renováveis como alternativa ao nuclear. Uma energia também considerada “limpa”, mas que está associada na nossa memória coletiva a grandes desastres. Em Portugal, a ideia nunca vingou apesar de algumas tentativas que geraram contestação. Hoje, permanecem as opiniões contra e a favor de uma solução que contra com várias centrais por todo o mundo, Europa incluída.

Foto de arquivo de Bruno Soares Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, Instituto Superior Técnico de Lisboa DR

Bruno Soares Gonçalves, diretor do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, do Instituto Superior Técnico, é um dos defensores da implementação deste tipo de energia em Portugal. À SÁBADO, começa por defender que é “importante para a soberania energética e para a descarbonização”, até por ser uma solução eficaz no que às reservas diz respeito: “Países como a França têm reservas de combustível nuclear para cinco anos, porque o combustível nuclear é muito fácil de armazenar e isso dá uma garantia também de soberania energética em situações de crise”, explica, além de ser bastante resiliente a aumentos de preço do combustível, que representa “apenas 10% dos custos operacionais”.

No entanto, lamenta que, até hoje, não tenha sido feito um Estudo dos Custos Totais do Sistema, de forma a perceber qual o “portfólio que garante que o país tem a energia suficientemente barata”. Ou seja, “energia que pode passar por várias soluções”, das renováveis à nuclear. “Só um estudo que tenha em conta todos os custos associados é que poderá dar uma resposta mais assertiva sobre se Portugal precisa do nuclear ou não”, ressalva. Mas está convicto que “o nuclear terá que fazer parte do portfólio, à semelhança dos resultados que estudos similares tiveram noutros países que os fizeram”. E vai mais longe: mesmo que Portugal não adote esta solução, o país poderá aproveitar “este renovado interesse no nuclear” para integrar as cadeias de abastecimento e, por exemplo, “ter uma fábrica de produção de sal purificado” para reatores de nova geração.

Mesmo aqui ao lado, há uma realidade bastante diferente. Pelo menos, até agora. Espanha tem cinco centrais nucleares, todas construídas na década de 1980, mas serão progressivamente desmanteladas. Pelo menos, é esse o acordo em vigor, embora polémico. A mais próxima de Portugal é a Central de Almaraz, localizada a 130 quilómetros da nossa fronteira, que tem encerramento previsto para outubro de 2028. “Várias consultoras têm vindo a indicar que é um erro, sobretudo porque estas são centrais que já estão amortizadas, em termos de custo, que são perfeitamente operacionais”, diz Bruno Soares Gonçalves, alertando que o aumento dos preços da energia subsequentes também podem afetar Portugal, “porque temos uma fração da nossa eletricidade que resulta da importação da eletricidade de Espanha”.

Nuclear? Não.

Francisco Ferreira, fundador e presidente da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável, tem uma opinião diferente, avançando com dois argumentos que considera suficientes para descartar a ideia do nuclear, pelo menos em Portugal, e agora: o custo e o tempo. "Quando nós falamos de uma central nuclear falamos de milhares de milhões de euros: a última central que entrou em funcionamento na Finlândia era para custar 3 mil milhões e custou 11 mil milhões”, diz. E recupera o anúncio da presidente da Comissão Europeia: “A Von der Leyen anunciou 200 milhões para se aplicar, acima de tudo, na prática, em termos de investigação de protótipos, de projetos na energia nuclear, e que tem muito a ver com aquilo que são os pequenos reatores modulares, imagino eu”, considera, explicando que “os protótipos que existem são caríssimos e apontam para um valor enorme em termos de custo”. E quando Francisco Ferreira se refere aos custos, está a falar do chamado “Levelized cost of electricity”, que engloba os custos totais, desde a construção da central, passando pela sua operação e até ao seu eventual desmantelamento. “

Francisco Ferreira, presidente da ZERO Alexandre Azevedo/Sábado

Sobre o tempo, recorda que estamos a viver uma “emergência do ponto de vista de resposta energética, de resposta climática” e todo o processo de definição de localização, estudo de impacto ambiental e construção de uma central nuclear demora muitos anos. Um investimento que não crê ser viável, quando existe “uma alternativa que precisa realmente de ser reforçada do ponto de vista do seu funcionamento, que é o caso da necessidade de armazenamento” das renováveis. "Um sistema elétrico baseado em fontes renováveis requer, e é muito importante ter, uma componente de armazenamento para conseguirmos gerir as diferentes fontes renováveis, mas esse armazenamento é proporcionado pelas barragens, é proporcionado pelas baterias, é proporcionado pelo hidrogénio verde e, portanto, eu tenho aqui um caminho muito mais estruturante do que um renovar de esperança no nuclear”.

Mesmo admitindo que haverá casos em que se justifique a energia nuclear – em que não haja opção pelas renováveis ou “a aceitação dos riscos por parte da população faça sentido” - recorda que Portugal já tem em marcha o Roteiro para a Neutralidade Carbónica até 2050, “que tem muito a ver com aquilo que é a nossa produção elétrica e realmente não passa por uma central nuclear”. Para Francisco Ferreira, “a questão nuclear está completamente arrumada”.

O que é o lixo nuclear?

Francisco Ferreira preferiu não abordar a questão dos resíduos radioativos, centrando a argumentação nos custos e no tempo necessários ao arranque da produção da energia nuclear, mas considerou que os resíduos são um dos riscos da implementação da energia nuclear. E quem segui de perto a série de animação Os Simpsons, imagina o lixo nuclear na forma de uma gosma verde radioativa. Não é bem assim.

“Quando nós falamos dos resíduos resultantes da operação nuclear, estamos sobretudo a falar do combustível que sai após utilização e que ainda tem um elevado conteúdo energético” e pode ser reutilizado, começa por explicar Bruno Soares Gonçalves. “Países como a França, por exemplo, reprocessam parte do combustível para reutilização”, aponta. Parte desses resíduos é de facto radioativa e são perigosos, “mas isso não significa que não saibamos como os tratar”. E o procedimento, resumidamente, começa por “períodos em piscina para arrefecimento” para depois poderem ser armazenados em contentores de metal e betão, “de forma perfeitamente segura”. Mais tarde, “podem ser postos em deposição geológica profunda, ou, se entretanto a tecnologia evoluir, podem vir a ser reutilizados como combustível nos reatores de nova geração, chamados de Fast Breeders”.

Representaçao de lixo radioativo na série de animação 'Os Simpsons' DR

Outra curiosidade passa pela dimensão dos resíduos nucleares produzidos. “Um exemplo que eu costumo dar é que se toda a eletricidade que um português consome ao longo de pelo menos 80 anos viesse do nuclear, os resíduos dessa produção de eletricidade caberiam num terço de uma lata de refrigerante. Precisaríamos ser americanos para encher a lata inteira, porque um americano consome 2,7 vezes mais eletricidade que um português”, conta o diretor do IPFN. E vai mais longe: “Na realidade, se todos os resíduos nucleares fossem colocados no mesmo sítio, sem elementos de contenção, de toda a produção de eletricidade que foi feita até hoje com base em nuclear, caberiam num estádio de futebol com três metros de altura”, relativiza. “Há uma perceção errada, não são contentores, não é um líquido viscoso como n’Os Simpsons, são elementos de combustível vitrificados e guardados, e que têm perigosidade, mas que sabemos como armazenar”. Ao contrário, exemplifica, das “emissões de CO2 que são lançadas para a atmosfera todos os dias, ou de metano, e que têm um impacto grande na saúde”.

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