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Cinco canções para lembrar Bonnie Tyler

De "It’s a Heartache" a "Total Eclipse of the Heart", a cantora galesa deixou um repertório marcado pela voz única, dramatismo e entrega.

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Bonnie Tyler alcançou os tops britânicos e americanos por diversas vezes
Bonnie Tyler alcançou os tops britânicos e americanos por diversas vezes Fryderyk Gabowicz/picture-alliance/dpa/AP Images

Bonnie Tyler, que morreu aos 75 anos, esta quinta-feira, em Faro, deixa uma carreira de mais de cinco décadas e uma das vozes mais reconhecíveis da pop-rock anglo-saxónica. Nascida Gaynor Hopkins, no País de Gales, começou a cantar em clubes locais, foi contratada pela RCA em meados dos anos 70 e transformou uma alteração vocal, depois de uma cirurgia às cordas vocais, numa assinatura artística. A sua carreira teve vários capítulos: o country-rock dos primeiros êxitos, a fase grandiosa com Jim Steinman, o lugar no imaginário dos anos 80, a persistência nos palcos europeus e a inesperada passagem pela Eurovisão em 2013. Estas são cinco canções para regressar a essa história.

1. Lost in France (1976)

Antes da voz de Bonnie Tyler se tornar sinónimo de baladas monumentais, houve uma canção de entrada: Lost in France. Lançado em 1976, foi o primeiro grande êxito da cantora e o tema que a retirou do circuito de clubes e palcos locais para a colocar no mapa pop britânico. A Official Charts Company regista o single como entrada no top britânico em outubro de 1976, com pico no 9.º lugar e dez semanas de permanência na tabela.

A canção ainda pertence a uma fase anterior ao dramatismo quase operático que viriamos a associar-lhe. Há nela um registo mais leve, entre pop, country e uma certa inocência romântica, mas já se percebe a característica central de Tyler: a capacidade de fazer uma canção convencional parecer vivida. Lost in France foi também o início da colaboração com Ronnie Scott e Steve Wolfe, dupla que ajudaria a definir a primeira fase da sua carreira através da escrita de canções.

2. It’s a Heartache (1977)

Se Lost in France abriu a porta, It’s a Heartache confirmou Bonnie Tyler como uma voz internacional. Lançada em 1977, a canção chegou ao 4.º lugar no Reino Unido e permaneceu 12 semanas na tabela oficial britânica. Nos Estados Unidos, tornou-se também um dos seus grandes cartões de visita, chegando ao top 3.

O tema é decisivo porque cristaliza a lenda da voz. Tyler tinha sido operada às cordas vocais e, por não ter feito o repouso recomendado, ficou com um timbre mais rouco, áspero e imediatamente reconhecível. Em It’s a Heartache, essa rouquidão não surge ainda como excesso teatral, mas como vulnerabilidade: uma balada country-rock simples, direta, quase resignada.

3. Total Eclipse of the Heart (1983)

Nenhuma canção explica Bonnie Tyler como Total Eclipse of the Heart. Escrita e produzida por Jim Steinman, a balada chegou ao 1.º lugar no Reino Unido, passou duas semanas no topo, e tornou-se também número um nos Estados Unidos. A Official Charts Company lembra ainda que o álbum Faster Than the Speed of Night também liderou a tabela britânica em 1983.

A origem do tema ajuda a perceber a sua dimensão. Steinman tinha começado a trabalhar a canção no universo de um musical inspirado na personagem Nosferatu, o que explica a atmosfera gótica, o excesso emocional e a ideia de amor como escuridão, urgência e vertigem. Em 2023, Tyler recordou ao jornal britânico  o momento em que ouviu a canção pela primeira vez; Steinman tocou piano enquanto Rory Dodd cantava a demo, e ela percebeu “imediatamente” que estava perante uma canção extraordinária.

A própria Tyler nunca tratou Total Eclipse of the Heart como um fardo. Em entrevista à publicação , chamou-lhe o seu “cartão de visita” e recordou que trabalhar com Steinman era precisamente o que queria quando assinou pela CBS: queria o compositor e produtor associado ao universo de Meat Loaf. Numa entrevista anterior ao Guardian, disse que não se cansava de a cantar, que eram aquelas canções que “punham o público a mexer”.

O videoclipe, filmado num antigo hospital vitoriano em Surrey, completou a mitologia; vento, coros, sombras e uma estética de pesadelo romântico que parecia feita para a era MTV. Décadas depois, a canção continuava a regressar às tabelas e às conversas públicas sempre que havia um eclipse solar, sinal raro de uma balada que saiu dos anos 80.

4. Holding Out for a Hero (1984/1985)

Holding Out for a Hero é a outra grande canção maximalista de Bonnie Tyler. Escrita por Jim Steinman e Dean Pitchford para a banda sonora do filme Footloose - A Música Está do teu Lado, foi lançada em 1984 e ganhou nova força no Reino Unido em 1985, quando chegou ao 2.º lugar da tabela oficial britânica e permaneceu 13 semanas no top.

Se Total Eclipse of the Heart era noite, sombra e desejo, Holding Out for a Hero era movimento, urgência e espetáculo. A canção trocava a balada gótica por uma energia quase cinematográfica; bateria acelerada, sintetizadores, refrão heroico e uma interpretação que pedia fôlego ao público. É uma das razões pelas quais Tyler ultrapassou o estatuto de cantora de baladas e entrou no território mais amplo da cultura pop. A canção continuou a reaparecer em filmes, séries, anúncios, versões e momentos de cultura digital.

5. Believe in Me (2013)

Believe in Me não tem o peso comercial de Total Eclipse of the Heart ou It’s a Heartache, mas é essencial para perceber a resistência de Bonnie Tyler ao papel de “figura dos anos 80”. A canção, composta por Desmond Child, Lauren Christy e Christopher Braide, representou o Reino Unido no Festival Eurovisão da Canção de 2013, em Malmö, Suécia, onde terminou em 19.º lugar.

O tema fazia parte do álbum Rocks and Honey e aproximava Tyler de um registo country-rock adulto, mais contido do que os grandes épicos dos anos 80. Em entrevista ao site , a cantora contou que ouviu a canção na cidade de Nashville - nos Estados Unidos - e gostou imediatamente dela; Desmond Child ainda a não tinha terminado, mas completou-a no dia seguinte, durante um jantar.

A participação na Eurovisão teve também um valor simbólico. Em 1983, Tyler já tinha sido convidada a representar o Reino Unido, mas recusou. Estava no auge da carreira, com Total Eclipse of the Heart a caminho do topo. Trinta anos depois, disse ao Guardian que aquele era o momento certo. Quando lhe perguntaram se se sentia presa ao passado, respondeu com uma frase que serve quase de epílogo à sua carreira: “Não sou parte dos anos 80, sou parte do agora.”

Believe in Me não redefiniu a sua história, mas mostrou que Tyler continuava interessada em disputar o presente. Talvez por isso seja uma boa canção, porque é aqui que se quer mostrar como mais do que uma relíquia de época. Bonnie Tyler será sempre lembrada por duas ou três canções gigantescas, mas a força da sua carreira esteve também nessa insistência em continuar a cantar como se ainda houvesse uma próxima oportunidade.

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