Bad Bunny, o cantor porto-riquenho que conquistou os Grammys e vai atuar no Super Bowl em protesto contra Trump
Em dez anos Benito Antonio foi de operador de caixa num supermercado em Porto Rico a estrela global. Vai agora atuar no maior palco dos Estados Unidos. "Daqui ninguém me tira, daqui eu não saio”, assegura.
Bad Bunny, o cantor porto-riquenho que vai atuar no Super BowlAP
Em 2016 uma música chamada "Diles" tornou-se viral na plataforma de streaming SoundCloud. O tema contava com a participação de vários artistas porto-riquenhos, incluindo Ozuna, mas a grande revelação foi Bad Bunny. O verdadeiro nome do artista é Benito Antonio Martínez Ocasio, que retirou inspiração de uma fotografia de infância onde aparece mascarado de coelho para o seu nome artístico: o coelhinho mau.
Nascido a 10 de março de 1994 em Bayamón, Porto Rico, Benito Antonio cresceu num meio católico, com um núcleo familiar estável de classe média-baixa e com dois pais que trabalhavam "para sustentar" o artista e os dois irmãos mais novos, Bernie e Bysael. A mãe era professora de inglês e o pai camionista. “Éramos uma família normal presa ao quotidiano”, relembra em entrevista ao jornal norte-americano The New York Times, falavam da "conta da luz, a velha da esquina que morreu e diagnósticos de cancro”, nos intervalos ouvia-se música tradicional boricua como salsa ou jíbara. Para a família, uma viagem à capital San Juan era um acontecimento de "quatro, no máximo cinco vezes por ano".
O início de uma carreira histórica
No seu tempo livre, quando não estava a lançar música no SoundCloud, Benito estudava comunicação audiovisual na Universidade de Porto Rico e trabalhava como caixa num supermercado local. Depois do sucesso de "Diles" e de outra canção intitulada "Soy Peor", Benito assinou com a Rimas Entertainment, com a qual mantém contrato até aos dias de hoje. Na altura o estilo musical de trap latino já estava em ascensão em Porto Rico, mas foi Bad Bunny que se declarou um dos seus principais expoentes. Em 2018 teve a sua grande estreia comercial quando a rapper Cardi B o convidou para colaborar na canção "I Like It".
Desde então, os seus álbuns YHLQMDLG (Yo Hago Lo Que Me Da La Gana) (2020), El Último Tour Del Mundo (2020) e Un Verano Sin Ti (2022), renderam-lhe três Grammy por melhor álbum de música urbana. E apesar da consagração popular já estar garantida há vários anos (foi quatro vezes o artista mais ouvido do ano no Spotify e é o artista mais ouvido na plataforma de sempre), a consagração pela crítica só aconteceu este ano, quando não só venceu o Grammy pelo seu álbum de 2025 Debí Tirar Mas Fotos (DtMF), como venceu na categoria de melhor álbum do ano, tornando-se o primeiro artista latino a alcançar este marco. Para além de já ter vencido 17 Grammy Latinos.
No seu discurso de agradecimento deixou algumas mensagens à administração Trump e à agência de imigração norte-americana (ICE), que já prometeu reforçar a presença no Super Bowl, onde Bad Bunny vai atuar. “ICE, vão embora, não somos selvagens, não somos animais, não somos extraterrestres, somos seres humanos e somos americanos”, disse, deixando ainda críticas aos apoiantes de Donald Trump, ao universo MAGA, que dizem que o artista não é norte-americano por ser de Porto Rico, apesar da ilha ser um território autónomo dos Estados Unidos.
Aos 31 anos, Bad Bunny é um dos cantores de língua espanhola mais populares de todos os tempos e o artista mais conhecido do mundo atualmente. Segundo a plataforma de streaming Spotify, o seu álbum Un Verano Sin Ti é o mais ouvido de sempre, contando com 21 mil milhões de streams. O seu álbum mais recente, lançado há um ano, já contava com 19,8 mil milhões de streams no final de 2025.
Uma fã de Bad Bunny com uma tatuagem temporária do artista nos seus espetáculos em Porto RicoAP
O ano passado fez 31 espetáculos na sua terra natal de Porto Rico e entretanto começou a sua digressão mundial, que vai passar por Portugal nos dias 26 e 27 de maio, onde vai atuar no Estádio da Luz, em Lisboa. Ambas as datas esgotaram em menos de 48 horas. Em entrevista à revista i-D em setembro do ano passado, o artista afirmou que optou por não fazer concertos nos restantes estados norte-americanos por temer que os seus fãs se tornassem alvos do ICE. Além de afirmar que a sua “residência” de concertos em Porto Rico iria desenvolver a economia da ilha, Bad Bunny explica que a escolha de não atuar nos EUA não foi “por ódio”. “Todos os [concertos nos EUA] foram um sucesso, foram magníficos, eu gostei de me conectar com os latinos que vivem nos EUA (...) mas havia a questão do ICE, poderia estar à porta [dos concertos] e isso era algo sobre o qual conversámos e que nos preocupava muito”, explicou à publicação.
Em 2023, após a digressão de Un Verano Sin Ti e de ser o cabeça de cartaz do festival Coachella, Benito mudou-se temporariamente para Los Angeles. Comprou uma casa em Hollywood Hills, assistia os jogos dos Los Angeles Lakers à beira do campo, e começou a namorar com a modelo Kendall Jenner, irmã das socialite Kardashians. Quando o casal apareceu publicamente pela primeira vez circulou pela internet o rumor que Benito se fosse mudar permanentemente para os Estados Unidos. Passado pouco tempo, lançou Nadie Sabe Lo Que Va a Pasar Mañana, o álbum com temas sobre festas com Leonardo DiCaprio no Mónaco e o receio de não se conseguir estabelecer na indústria norte-americana.
Bad Bunny com a ex-namorada Kendall Jenner a assistir a um jogo de basquetebol da equipa Los Angeles LakersAP
À revista The Cut revela que na verdade, essa foi a altura em que sentiu mais saudades de Porto Rico. “Eu sentia muita falta e pensava, essa decisão foi minha, porque eu precisava de um tempo para mim mesmo”, diz, “foi aí que comecei a ter mais empatia pelas pessoas que vão embora sem querer, como as pessoas que têm que tomar uma decisão difícil pela família, pelo futuro dos filhos, por elas mesmas, e isso doía”.
Uma carta de amor a Porto Rico
Meses depois de lançar Nadie Sabe Lo Que Va a Pasar Mañana voltou para Porto Rico onde começou a escrever e a produzir Debi Tirar Mas Fotos. Na música La Mudanza canta como a ilha é a sua verdadeira casa e nunca vai sair de lá: “De aquí nadie me saca, de aquí yo no me muevo/Dile que esta es mi casa, donde nació mi abuelo” (Daqui ninguém me tira, daqui eu não saio/ Diz-lhe que esta é a minha casa, onde o meu avô nasceu).
Na mesma entrevista diz que foi este álbum que o ajudou a conectar com quem ele realmente é, o seu eu interior, incluindo as partes dele moldadas pela turbulência política de Porto Rico. O resultado é uma homenagem e uma proclamação de bandeira hasteada. O disco é uma mistura de bomba, plena, salsa, música jíbara, house e reggaeton, os estilos de música que ouve desde criança e tematicamente, o músico explora temas como a gentrificação, a independência porto-riquenha face aos Estados Unidos e a identidade da ilha.
Um turista posa para fotos em frente a um mural de Bad Bunny em San Juan, Porto RicoAP
Na música Lo Que Le Pasó A Hawaii, o Estado norte-americano que anteriormente era um território autónomo como Porto Rico, Benito dirige-se aos habitantes da sua ilha para que, apesar da intervenção norte-americana, não se esqueçam dos costumes e que preservem a identidade da ilha. “Quieren quitarme el río y también la playa/ Quieren al barrio mío y que tus hijos se vayan/ No suelten la bandera ni olviden el ‘lelolai’/ Que no quiero que hagan contigo lo que le pasó a Hawái” ("Querem tirar-me o rio e também a praia/ Querem o meu bairro e que os teus filhos se vão embora/ Não larguem a bandeira e não se esqueçam do ‘lelolai’ [um canto típico de Porto Rico] / Não quero que façam contigo o que aconteceu ao Havaí").
A sample da música Un Verano en Nueva York da banda porto-riquenha de salsa e dembow, El Gran Combo, em NuevaYol foi utilizado com um único objetivo: que os jovens se conectassem com gerações mais velhas de porto-riquenhos.”Fazia parte do plano”, revelou o artista à Variety, “fazer com que as pessoas, especialmente os jovens, procurassem músicas antigas de salsa e quisessem aprender a dançar e se conectar com os seus pais, avós e tios”. Assim que o álbum foi lançado, no TikTok surgiram vídeos de jovens a gravar a reação de familiares a ouvir a canção pela primeira vez e a dançar. “Quando comecei a ver esse movimento, explodi, pensei ‘ que lindo’”, acrescenta, explicando que ele próprio começou a ter aulas de dança enquanto criava o álbum.
Em entrevista ao locutor de rádio Zane Lowe para a plataforma Apple Music, Benito revelou que criou 100% o álbum em Porto Rico, uma espécie de carta de amor à ilha. “Algumas músicas gravei em Nova Iorque”, explicou o artista, “queria gravar tudo em Porto Rico mas estive a trabalhar dois meses em Nova Iorque [enquanto gravava os filmes O Maluco do Golfe 2 e Apanhado a Roubar]”. “Enchemos um escritório cheio de bandeiras de Porto Rico e gravei duas ou três canções lá, mas o álbum inteiro foi feito cá [Porto Rico]”, concluiu. Apesar de ser cantor, Bad Bunny tem entrado em vários filmes, incluindo Bullet Train: Comboio Bala.
Este fim de semana será a atração principal do Super Bowl LX, no Levi’s Stadium, em Santa Clara, na Califórnia. O anúncio causou algum alvoroço no universo MAGA que vê a sua atuação como uma afronta aos seus ideais. Bad Bunny tem criticado ao longo dos anos a administração Trump e a relação entre os EUA e Porto Rico, recentemente tem-se manifestado contra o ICE e já incluiu imagens anti-Trump no videoclipe da música NUEVAYoL.