Fotografou nomes consagrados da cultura brasileira e portuguesa, mas a paixão pela música é insuperável. Falámos com Daryan Dornelles, que volta a integrar o júri do concurso de fotografia da SÁBADO Fotografar é uma Viagem.
Começou a fotografar “ao acaso”, mas ao longo das últimas três décadas transformou esse mesmo acaso numa profissão a tempo inteiro. Natural do Rio de Janeiro, Daryan Dornelles, de 55 anos, mudou-se para Portugal há oito anos e, desde então, já retratou nomes conhecidos do público português como Salvador Sobral, Carminho, Ana Moura, Dino d’Santiago e Sérgio Godinho. No Brasil, captou com as suas lentes figuras icónicas do país como Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil. Pela segunda vez, Dornelles - que junta no portfólio milhares de retratos feitos, centenas dos quais elevados a capas de discos - integra o leque de jurados do concurso de fotografia da SÁBADO, Fotografar é uma Viagem, cuja fase de candidaturas está a decorrer até 19 de setembro, através do site oficial (concursodefotografia.com).
Em entrevista, o fotógrafo premiado fala sobre as expectativas para esta segunda edição do concurso, o início da carreira, a paixão pela música e a evolução da fotografia, num mundo onde a imagem desempenha um papel cada vez mais relevante.
A fotografia apareceu na sua vida por acaso...
A minha vida é feita de acasos e esse foi um dos principais acasos da minha vida, até porque me tornei fotógrafo por causa disso. Fazia natação no Vasco da Gama, que é um clube do Rio de Janeiro, e havia uma competição em Santiago. Ia apanhar um voo de conexão para Santiago e perdi-o porque eu estava bêbado. Dormi por baixo do carro de promoção, que estava no aeroporto de Guarulhos. Apanhei o voo no dia seguinte, o meu técnico foi buscar-me ao aeroporto e disse que estava à procura de um fotógrafo. Ofereci-me para fotografar, mesmo sem saber fazê-lo. Tornei-me fotógrafo de natação do Vasco.
Mais tarde, trabalhou para a revista Placar.
Esse foi outro acaso. Um amigo que conheci dentro do [estádio de futebol] Maracanã convidou-me para fotografar um jogo mesmo não sabendo fotografar nada. Fiz, sem querer, uma grande imagem, que apareceu na revista. Depois, fui convidado para trabalhar lá.
Foi lá que descobriu a paixão pelos retratos?
Na revista fotografava, claro, o factual, que era o futebol. Mas tratava-se de um editorial, tinha as capas e tinha de pensar em como fazer aquela capa, pensar na luz, pensar no conceito. Tudo aquilo encantou-me no retrato.
Em 2007 fotografou a atriz brasileira Fernanda Montenegro. O que mudou a partir daí?
Mudou tudo. A Bravo era a principal revista de cultura do Brasil, um espaço onde os grandes fotógrafos brasileiros queriam estar. Tive a oportunidade, através de um acaso.
Como é o processo de fazer um retrato? Existem estratégias para ajudar as pessoas a relaxar?
O retrato é um encontro entre duas pessoas e tem a natureza dos encontros. Temos que deixar tudo o mais tranquilo possível, fazer um pré-estudo e saber antes o que vamos fazer. No set, faço tudo de maneira rápida. Às vezes, são cinco minutos. Às vezes, são 10. Até é um pouco egoísta da minha parte, mas é o que eu quero fazer, não o que o outro imagina. Faço sempre a analogia com o dentista. As pessoas chegam ao dentista com medo de abrir a boca. Com o retrato é a mesma coisa. Já vêm na defensiva, não é?
DDaryan integrou o leque de jurados da primeira edição do concurso Fotografar é Uma Viagem. Nesta segunda edição, volta a desempenhar esse papel Duarte Roriz
A música é uma grande paixão?
É a única, até antes da fotografia. Eu só falo de música, não falo de fotografia. O único grupo que eu tenho no WhatsApp é de música e agora também toco pandeiro numa roda de samba. Todas as semanas compro discos e CDs, ou fita cassete, ou vinil. Tinha mais de oito mil discos no Brasil, não trouxe nem metade [para Portugal].
Que artistas tem ouvido ultimamente?
Há tanta coisa que eu escuto. Jazz, samba, rock... New Modern Army, AC/DC, The Who, Miles Davis...
Já fotografou algumas das figuras mais conhecidas da música brasileira. Há alguma sessão fotográfica que tenha sido mais especial?
Quando faço um retrato, não penso muito nisso. Faço o meu trabalho. As pessoas confundem eu ter retratado muitas pessoas com amizade. Claro que esses grandes nomes acabam por ficar mais [na memória das pessoas]: Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Gilberto Gil. O meu pai adorava o Chico. Foi ótimo, mas também tenho gosto por outros retratos de pessoas não conhecidas.
Vivemos num mundo em que é cada vez mais fácil ter acesso a câmaras com qualidade e em que a imagem chega a estar saturada. O que é que isso muda no mundo profissional?
São muitas imagens a ser produzidas sem contexto, não é? Todo o mundo hoje tem acesso a uma câmara relativamente “boa”. Isso gera uma infinitude de imagens, é demais. Ao mesmo tempo, também existe a parte do processo criativo das pessoas que estão a fotografar e isso é legal. É um momento novo e as pessoas têm de se adaptar.
O retrato do músico e compositor brasileiro, feito por Daryan, ilustrou a capa da edição comemorativa de cinco anos da revista Rolling Stone Brasil, em 2011 Daryan Dornelles
Vive em Portugal há oito anos. É um bom país para se fotografar?
Portugal é sensacional. No Rio de Janeiro, não saio com a câmara para a rua. Aqui, vivo com a câmara nas ruas e fotografo o que quero, da maneira que quero. Isso fez-me olhar para a fotografia de outra maneira.
Porquê a mudança?
Tinha filhos pequenos. Há uma violência urbana no Rio de Janeiro muito forte. Tanto eu como a Márcia, a minha esposa, achámos melhor sair dessa neura que é o Rio de Janeiro.
Porque decidiu aceitar novamente o convite para integrar o júri do concurso de fotografia da SÁBADO, Fotografar É Uma Viagem?
Acho este concurso de fotografia superimportante, justamente para as pessoas pararem um pouco e perceberem o que é pensar no conceito de uma fotografia.
O que é para si uma boa fotografia?
Com 30 anos de experiência, eu e outros fotógrafos obviamente temos um olhar técnico para avaliar uma fotografia de maneira melhor, mas o que vale é a emoção.
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