Tentou uma privatização do mundial, aproximou-se de Trump e alienou antigos aliados. Agora tenta reunir apoio à sua recandidatura.
Gianni Infantino, o presidente da FIFA, confirmou recentemente que vai concorrer à reeleição para 2027-2031, com o apoio de mais de 200 federações. Mas o seu percurso tem cada vez mais obstáculos e o próprio não é alheio a esta situação. E as críticas ao atual presidente vão-se acumulando todos os dias. E por isso, Infantino chamou recentemente todos os pesos pesados da FIFA para uma reunião em Marrocos esta quarta-feira, para falar de tudo o que se tem passado nos bastidores nos últimos dias.
Gianni Infantino, presidente da FIFA, fala em conferênciaEduardo Verdugo
O plano de privatização
Infantino apresentou a semana passada um plano para deixar os privados entrarem no Mundial. Segundo o plano, a FIFA Forward Enterprise teria 20% do seu capital detido por investidores privados. Entre eles estaria uma empresa de investimento sediada em Nova Iorque e criada por Joshua Kushner, irmão mais novo de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas o plano saiu furado.
"Depois de ouvir atentamente todas as opiniões, tornou-se claro que o projeto criou divisões de tal natureza que, independentemente do nível de apoio de que pudesse beneficiar, já não serve o objetivo para o qual foi inicialmente concebido", lê-se num comunicado divulgado no sábado pela FIFA e atribuído a Infantino. "Daqui para a frente, a minha intenção é reunir novamente todas as partes interessadas nos próximos dias e semanas, num espírito de interesse comum pelo nosso desporto, com o objetivo de continuar a desenvolver o futebol em todo o mundo, particularmente nos países que mais necessitam do nosso apoio", acrescentou o presidente da FIFA.
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Infantino quer vender o Mundial: O que está em causa?
As cidades do mundial sem bónus
O jornal The Athleticdeu a notícia de que a FIFA ainda não pagou o bónus extra de um milhão de dólares (quase 870 mil dólares) às 11 cidades que receberam jogos do mundial, bónus prometido pela organização para ajudar nos custos que a competição teve ao longo de 40 dias.
De acordo com o jornal, Los Angeles, Dallas, Houston, Atlanta, Nova Iorque, Nova Jérsia, Filadélfia, Kansas, São Francisco, Seattle, Miami e Boston sentem-se "enganadas" pela falta de pagamento.
A rebelião interna
De acordo com fontes da UEFA, citadas pela BBC Sport, existe uma fação que se recusa a colaborar com a FIFA enquanto Infantino continuar a liderar aquela organização e há até ameaças de boicotes a tudo o que venha da FIFA.
Há até delegações que anteriormente apoiavam Infantino e que podem deixar de o apoiar nesta nova candidatura. O The Guardian avança que as federações-membro da CONCACAF começam a organizar-se para retirar o apoio à recandidatura de Gianni Infantino.
A carta
Esta semana, Mattias Grafstrom, secretário-geral da FIFA, enviou um email interno para os funcionários da federação mundial mundial no rescaldo do Campeonato do Mundo. Na mensagem a que a televisão britânica teve acesso, Grafstrom descreve o projeto de Infantino - embora não refira diretamente o seu nome - e todos os episódios subsequentes em torno deste como uma "série de tristes e reprováveis eventos", colocaram a FIFA num "turbilhão difícil de compreender e aceitar".
"Asseguro-vos que, como membros da administração, serão defendidos e salvaguardados do contexto político que atualmente vivemos. Não precisam de se preocupar. Indivíduos, momentos de instabilidade e episódios infelizes vêm e vão. A instituição, a sua missão e a sua responsabilidade perante o futebol mundial continuam, e é por isso que devemos manter sempre o nosso profissionalismo, sentido de perspetiva e serenidade", lê-se ainda.
Figo e outros contra Infantino
A famigerada tentativa da venda do Mundial, orquestrada por Infantino, foi condenada esta terça-feira por Arsène Wenger. O diretor de desenvolvimento global da FIFA afirmou que é "absolutamente necessário" cancelar investidores privados dos planos do organismo que tutela o futebol mundial.
“Os recentes acontecimentos na FIFA merecem alguns esclarecimentos da minha parte. Na FIFA, sou o Chefe de Desenvolvimento Global do Futebol. Juntamente com a minha equipa, supervisiono a análise de dados do jogo, o centro de treino online da FIFA, o desenvolvimento da formação de jovens através de 60 academias em 60 países onde são mais necessárias, e as competições juvenis em todo o mundo”, começou por apontar o antigo técnico francês do Arsenal.
“Além disso, sou consultor técnico da IFAB. Não estive envolvido neste plano estratégico e tomei conhecimento do projeto apenas através de notícias nos meios de comunicação social. A decisão de retirar o projeto foi absolutamente necessária e indiscutível, porque acredito firmemente numa FIFA independente que sirva o nosso futebol com empenho, transparência e integridade”, acrescentou.
Luís Figo, antigo internacional português e conselheiro da UEFA, lançou um ataque contundente a Infantino, exigindo a demissão imediata do presidente da FIFA. O ex-jogador acusa Infantino de ter o "comportamento mais baixo, enganador e egoísta" que já testemunhou.
Trump, um aliado de peso
Infantino chegou aos comandos da Fifa em 2016, o mesmo ano em que Trump foi eleito para a Casa Branca e tornaram-se próximos, decisão que causou algum desconforto - desconforto que foi reforçado quando o presidente dos Estados Unidos conseguiu que um cartão vermelho fosse revertido. Mas ganhou também um aliado nesta fase da sua carreira.
“O Gianni ajudou-nos muito a realizar o melhor Mundial de sempre. O presidente gosta muito dele. Tenho a certeza de que o presidente fará tudo o que for possível para o ajudar, é uma pessoa leal”, disse ao The Telegraph uma fonte da Casa Branca recentemente.
É verdade que o Mundial deste ano foi o maior de sempre e o que terá rendido mais dinheiro. Mas pode vir a custar o lugar de ouro a Infantino.
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