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“Nem o empate foi um drama, nem a vitória a última Coca-Cola do deserto”

Francisco Máximo Gaié 24 de junho de 2026 às 15:11

Independentemente do resultado, o antigo líder do PSD tem sempre uma confiança moderada, e é este o adjetivo que faz questão de reforçar, quase como quem não quer agourar o destino da Seleção. Mesmo assim, com uma equipa de "tanta qualidade", não vê razões para que Portugal não possa chegar à final do Mundial.

Luís Marques Mendes não é um homem de rituais nem de superstições, mas sempre que pode faz questão de ver os jogos da Seleção no estádio, vestido a rigor, como pede a ocasião, com a camisola do equipamento e com o cachecol que, afirma, gosta de trazer consigo nos dias de jogo.

Como reagiu à vitória de Portugal com o Uzbequistão?

Foi um grande resultado, uma goleada, uma boa exibição. Depois de uma semana em que os portugueses criticaram e se distanciaram muito da Seleção, acho que o jogo de ontem foi uma espécie de reconciliação entre a equipa e os portugueses. A Seleção e os portugueses ganharam confiança e há agora um sentimento muito mais positivo em relação ao futuro. Portanto, acho que foi um marco de viragem e espero agora que a próxima fase venha confirmar a expectativa positiva de ontem.

Sente-se mais confiante agora do que depois da estreia contra a RD Congo?

Sempre senti uma confiança moderada. Sublinho, moderada. Nem o empate com a RD Congo foi um drama, nem a vitória contra o Uzbequistão foi a última Coca-Cola no deserto. Nós tivemos um grande jogo ontem e um grande resultado, mas não estávamos a jogar com a Alemanha, nem com a Colômbia e a Espanha. Estávamos a jogar com o Uzbequistão. Agora, nestas matérias do futebol há sempre muita tendência para passar com uma facilidade olímpica da euforia para a depressão, ou da depressão para a euforia.

Acho que nem oito nem oitenta. Nem quando se perde se perde tudo, nem quando se ganha se ganha tudo. O jogo de ontem deu agora um sinal de maior confiança para os próprios jogadores e, portanto, acho que foi um momento muito positivo. Imagine-se que a exibição não era brilhante ou que se ganhava por um a zero. Evidentemente os níveis de confiança não estavam tão em alta como neste momento estão, e portanto isso é bom.

E para o jogo com a Colômbia?

Tenho o desejo de que Portugal ganhe e que com isso passe em primeiro [no grupo] para os 16 avos de final. E sinceramente, conhecendo a Seleção portuguesa, e tendo visto a Colômbia jogar duas vezes nesta edição, acho que Portugal tem equipa mais do que suficiente para ganhar o jogo. Não é que seja uma má seleção, tem bons players, mas é a equipa do Mundial com a média de idades mais avançada, com 30 anos. Já tem muitos jogadores bastante adiantados na idade.  É uma seleção que tem talento, mas que está completamente ao nosso alcance. E insisto também em algo que costumo dizer sempre: Portugal joga sempre melhor com seleções de maior qualidade. Tem normalmente uma atitude mais mobilizadora com seleções que são mais fortes e tendemos a ser displicentes com seleções, digamos, menores. Eu não faço previsões, mas desejo muito que ganhemos à Colômbia.

Depois de Ronaldo ter admitido ontem uma semana muito difícil, deixa algum conselho para aumentar o moral da equipa?

Não dou conselho nenhum. Acho que Ronaldo ontem foi o homem do jogo. Acho que ele ganhou um suplemento de alma, um reforço enorme de confiança. Não me surpreendia, por isso, que o Ronaldo estivesse mais forte nos próximos jogos. Ele ontem marcou dois belos golos e reconciliou-se com golos numa altíssima competição. Acho também que teve uma intensidade muito grande no jogo. Não fez apenas dois golos, esteve muito ativo, muito interventivo. O Cristiano Ronaldo, nos últimos dias, foi muito criticado. E acho que não há mal nenhum em ser criticado, mas acho que houve exagero nas críticas. 

Ontem viu-se no estádio em Houston milhares de pessoas a apoiar a Seleção portuguesa, a maior parte nem eram portugueses. Eram de outros países, de várias partes do mundo, que estão ali a apoiar Portugal por causa do Cristiano Ronaldo. Isto não tem preço e é importante para a imagem de Portugal. Em muitas partes do mundo, o Cristiano Ronaldo é mais conhecido que o nosso País. Isto é bom para Portugal, é bom para a Seleção portuguesa e é uma característica fundamental do Ronaldo.

Acho que às vezes nos esquecemos desta dimensão. Há um Ronaldo com uma dimensão futebolística, que já foi o melhor do mundo e que continua a ter um talento invulgar e depois há um Cristiano Ronaldo para além das quatro linhas, que normalmente é esquecido, mas que tem uma grande importância. Tem uma grande importância do ponto de vista psicológico, do ponto de vista da mobilização da Seleção. E do ponto de vista da afirmação internacional do País. 

Além de Ronaldo, destaca mais algum jogador?

Eu destacaria todos porque acho que nós nunca tivemos uma Seleção com tanta qualidade. Mas destacaria Nuno Mendes. Se acho que o herói do jogo de ontem foi Cristiano Ronaldo, o melhor jogador em campo, do ponto de vista apenas futebolístico, foi Nuno Mendes. É porventura o lateral esquerdo de maior qualidade no mundo inteiro. Ele é uma máquina e é daquelas mais-valias que pode desequilibrar os nossos adversários nos jogos futuros. É um jogador absolutamente notável pela atitude combativa, solidez defensiva, capacidade ofensiva notável e velocidade. Quer dizer, aquele homem dá gosto de ver jogar. 

Tem algum ritual antes dos jogos?

Não, isso não tenho. Gosto apenas de pôr o cachecol ao pescoço, mas nada mais. Se for ao estádio, visto evidentemente uma camisola, mas de um modo geral, sim, gosto de trazer o cachecol comigo no dia dos jogos. 

Acompanha mais alguma seleção?

Acompanho-as a todas, mas a única com quem vibrei além de Portugal foi a seleção de Cabo Verde. Acho que todos os portugueses vibraram. Cabo Verde é um caso especial que merece um elogio rasgado. Um empate com a poderosa Espanha e um empate com o Uruguai para um país pequeno, uma seleção frágil, é qualquer coisa de extraordinário. Portanto, vibrar neste Mundial, só com Portugal e com Cabo Verde.

Faz alguma previsão das equipas que podem vir a disputar a final?

Acho que não é uma tarefa impossível Portugal voltar a disputar uma final como fez no Europeu de 2016. Desejo ardentemente isso e, se os sinais do jogo de ontem se reforçarem nos próximos, não sei porque é que não se há de admitir essa hipótese. Agora, tirando Portugal, acho que há três seleções que do ponto de vista analítico me parecem muito fortes: a França, a Espanha e a Argentina. Do meu ponto de vista estas são as três seleções mais fortes. Agora, acho que Portugal, se continuar na linha de ontem, pode estar ao mesmo nível destas três seleções.

Com Isabel Dantas

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