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"Cúpula Dourada": o sistema de defesa de Trump que pode tornar o espaço num "campo de batalha"

Luana Augusto 01 de fevereiro de 2026 às 07:59

Presidente inspirou-se na defesa aérea israelita - uma das melhores do mundo - para mandar construir a "Cúpula Dourada". Segundo um general, o "custo é assustador", mas permitirá que os EUA se defendam de outros países, como o Irão.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quer construir aquilo a que ele chamou de a "Cúpula Dourada da América" - ou seja, nada mais nada menos, do que um sistema de defesa de mísseis que seria usado para para proteger o seu país de ameaças estrangeiras.
Trump quer sistema de defesa "Cúpula Dourada" contra países como o Irão Foto AP/Mehr News, Sajjad Safari
Por enquanto, o plano ainda está longe de ser concretizável, uma vez que não há financiamento para tal, no entanto, é esperado que o custo seja bastante avultado, rondando as centenas de milhões de dólares. Caso este projeto entre em ação, seria a primeira vez que os americanos colocariam armas no espaço - algo inovador para os Estados Unidos, mas visto como uma ameaça para a Rússia e a China, que alertam que esta ideia aumentaria "o risco de o espaço se tornar um campo de batalha".

1A origem da ideia

A ideia da "Cúpula Dourada" veio à tona pela primeira vez em março de 2025, durante um discurso de Trump no Congresso - onde o republicano solicitou um financiamento para o projeto. "Israel tem, outros lugares têm, e os Estados Unidos também deveriam ter", disse na altura, sem especificar ao que se referia. Sabe-se, contudo, que o presidente norte-americano falava de um dos sistemas de defesa aéreo israelita: a "", que terá servido de inspiração para a "Cúpula Dourada da América". O sistema de defesa israelita foi instalado em 2011 para o país se defender de mísseis lançados de outros países, ou de grupos terroristas como o Hamas. Apesar de atuar principalmente sob os mísseis de curto alcance, Israel conta ainda com outros  capazes de intercetar mísseis vindos de países tão distantes como o Irão. A "Cúpula de Ferro" israelita foi desenvolvida, na altura, com o apoio dos EUA, e entretanto foram já milhares os mísseis intercetados. O sistema de defesa é um dos mais reconhecidos do mundo e tem uma taxa de sucesso superior a 90%, segundo Israel.

2O que é a "Cúpula Dourada"?

A "Cúpula Dourada" seria, assim, uma espécie de "Cúpula de Ferro" israelita, ou seja, um sistema de defesa multicamadas. Segundo o presidente norte-americano, incluiria "tecnologias da próxima geração" por "terra, mar e espaço, incluindo sensores e intercetores espaciais". "A Cúpula Dourada será capaz de intercetar mísseis mesmo que sejam lançados de outras partes do mundo e até mesmo do espaço", disse Donald Trump, ao acrescentar que deseja que esteja operacional antes de terminar o seu segundo mandato.

3Como funcionaria?

O sistema permitiria detetar mísseis no início do lançamento, apreendendo-os a meio do percurso e destruindo-os nos últimos instantes de aproximação ao alvo. "Temos novas ameaças. Temos mísseis hipersónicos, drones. Temos até mesmo aqui, no Alasca, balões espiões. O que precisamos de fazer é modernizar o sistema com o que chamamos de defesa em camadas, não apenas com o sistema terrestre. É preciso integrar diferentes sistemas, como o Aegis Ashore, o THADD, e também sistemas espaciais - tanto para rastreamento quanto para interceção e fazer isso com uma arquitetura de software aberta para integrar esses sistemas", explicou em agosto do ano passado o senador Dan Sullivan à jornalista Margaret Brennan, da CBS News, que disse estar a trabalhar com o Pentágono no desenvolvimento de planos para a "Cúpula Dourada".

4Quanto custará?

Segundo Donald Trump, a iniciativa irá abranger diversos programas e será implementada em estados como a Florida, Geórgia, Indiana e Alasca. Ao mesmo tempo, envolverá também diversas empresas americanas de defesa e tecnologia. O Escritório de Orçamento do Congresso estimou, por isso, um custo de muitos, muitos milhões. No ano passado Trump falava em 175 mil milhões de dólares, um valor que pode ser só a ponta do iceberg... "O custo é certamente algo assustador", disse à o general aposentado Frank McKenzie e ex-comandante do Comando Central dos EUA. "Mas, por um lado, [há] a capacidade de os Estados Unidos se defenderem contra um ataque nuclear, não necessariamente um ataque russo massivo, mas um ataque da Coreia do Norte, um ataque do Irão, um potencial ataque de um país como o Paquistão, que está trabalhar no desenvolvimento de um míssil balístico intercontinental. Todas essas são coisas  valem o custo necessário para operar o sistema." A empresa aeroespacial e de defesa Lockheed Martin, entretanto afirmou na rede social X estar pronta para apoiar a missão e descreveu-a como um "conceito revolucionário". "Esta é uma missão urgente e crucial para a segurança dos Estados Unidos", afirmou a empresa. O diretor de operações da Lockheed Martin, Frank St. John, cque o sistema ofereceria proteção contra mísseis nucleares, bem como contra mísseis balísticos e de cruzeiro de alcance intermediário, além de outras ameaças.  Apesar de já haver também um responsável por supervisionar o progresso de construção da cúpula - o general Michael Guetlein, da Força Espacial dos EUA -, ainda não há financiamento para o projeto que "ainda está numa fase concetual", esclareceu o secretário da Força Aérea, Troy Meink, em maio de 2025, durante uma audiência com senadores.

5O que a China já disse sobre a construção deste projeto?

O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês pediu que os Estados Unidos "abandonem o desenvolvimento e implementação de um sistema global de defesa antimíssil o mais rápido possível". "Os Estados Unidos, ao adotarem uma política de 'primeiro os EUA', estão obcecados em procurar segurança absoluta para si mesmos", disse no ano passado um porta-voz do Ministério. "Isso viola o princípio de que a segurança de todos os países não deve ser comprometida e mina o equilíbrio e a estabilidade estratégica global. A China está seriamente preocupada com isso." O mesmo porta-voz acrescentou ainda que o plano da "Cúpula Dourada" "aumenta o risco de o espaço se tornar um campo de batalha" e "alimenta uma corrida ao armamento". Já a Rússia, afirmou em 2025, numa declaração conjunta com a China, que o projeto da cúpula era "profundamente desestabilizador por natureza" e transformaria o espaço numa "arena para confrontos armados". Uma avaliação da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, citada pela CBS News, mostra que as forças armadas americanas esperam, na próxima década, enfrentar ameaças de mísseis de maior "escala e sofisticação". Enquanto isso, a mesma avaliação afirma que "a China e a Rússia estão a desenvolver uma série de novos sistemas de lançamento para explorar as lacunas nas atuais defesas antimísseis balísticos dos Estados Unidos".
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