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O nível de literacia alimentar dos portugueses é positivo, mas oscila consoante o contexto sócio-económico, demográfico e profissional dos consumidores.
Interpretar rótulos alimentares, identificar alergénios e avaliar o valor nutricional de um alimento é um dos desafios mais persistentes no que toca à literacia alimentar da população adulta em Portugal. Cerca de 44% das pessoas consideram difícil compreender a informação sobre alergénios nos rótulos alimentares e têm dificuldade em compreender a informação transmitida por selos ou classificações, como o selo sem glúten, de agricultura biológica, entre outros. Além de que 41% não consegue avaliar se um alimento é saudável com base no Nutri-score.
Quase metade da população não sabe interpretar rótulos de produtos alimentares e identificar alergéniosTom Werner/Getty Images
Estes valores constam no "Estudo Nacional de Avaliação da Literacia alimentar em adultos", realizado pela Associação Portuguesa de Nutrição em colaboração com o Continente e a Pitagórica, que revela que o nível de literacia alimentar dos portugueses é de 57,5, numa escala de 0 a 100. Um em cada três consumidores apresenta níveis inferiores a 50, enquanto 11% atinge mais de 75.
Este valor oscila consoante o contexto sócio-económico, demográfico e profissional dos consumidores. Jovens adultos, pessoas empregadas e agregados com rendimentos “confortáveis” registam níveis mais elevados de literacia alimentar. Já pessoas mais idosas, desempregados e famílias com rendimentos baixos apresentam resultados mais baixos. Ou seja, têm dificuldade em aceder, avaliar e aplicar informação relacionada com alimentação, quer seja na leitura de rótulos, na seleção dos alimentos e na preparação da comida.
À SÁBADO, Helena Real, nutricionista e especialista em Nutrição Comunitária e Saúde Pública da Associação Portuguesa de Nutrição, conta que “que ainda há muito a fazer” no que toca a literacia alimentar em Portugal. “Podemos pensar na literacia alimentar como uma ferramenta importante para promover hábitos alimentares mais equilibrados e sustentáveis, capacitando os indivíduos nos diferentes pilares” como é o caso do planeamento e gestão alimentar, na seleção dos alimentos e na sua preparação, nota.
Quanto ao impacto das escolhas alimentares, mais de metade da população não sabe encontrar informação relacionada com a sustentabilidade alimentar ou poluição e 50% acreditam que é difícil mudar hábitos alimentares de modo a contribuir para o desenvolvimento territorial. Quase metade dos inquiridos, cerca de 43%, consideram difícil avaliar se a informação nutricional permite adequar a alimentação às suas necessidades de saúde.
“Os dados mostram que os indivíduos têm mais facilidade em aceder e compreender determinadas informações, mas manifestam mais dificuldade em avaliá-la e aplicá-la no dia-a-dia”, afirma Helena Real, explicando que é necessário trabalhar “questões mais práticas de aplicação das informações a que acedem os consumidores”. Assim, a linguagem deve ser simplificada e focada nas áreas onde os consumidores têm mais dificuldade como o conhecimento do impacto ambiental das suas escolhas, a interpretação dos selos, nutri-score e alergénios, e na identificação de métodos de preservação dos nutrientes e adaptação de receitas.
O estudo retira uma conclusão, que o problema da falta de literacia alimentar assenta na dificuldade em transformar conhecimento em comportamentos concretos como no planeamento de refeições, interpretação de rótulos e fazer escolhas alimentares conscientes, e não na falta de informação.
Para a nutricionista, “seria importante trabalhar o aumento da literacia alimentar desde cedo e começar pelas crianças, desenvolvendo ações estruturadas e conscientes” para que os adultos no futuro tenham “maior literacia alimentar e estilos de vida mais saudáveis”.
Esta notícia foi atualizada pelas 13h07 com a resposta da nutricionista Helena Real.
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