Diários de coronavírus: a vida num lar com infetados

Diários de coronavírus: a vida num lar com infetados
Vanda Marques 04 de maio de 2020

Helena trabalha numa residência sénior que já perdeu dois utentes para a covid-19. Para João, a pandemia serviu de desculpa para o despedirem. Conheça os testemunhos de como a pandemia lhes mudou a vida

Artigo originalmente publicado na SÁBADO em abril. 

Helena, 24 ANOS, GERONTÓLOGA

CANTAR DE MÁSCARA E FAZER VIDEOCHAMADAS
"Sei que tenho de ser forte, mas custou-me muito a morte do nosso utente de 92 anos. São todos como avós para mim. Mesmo nos dias em que estou mais em baixo – ando sem apetite – quando lá chego basta abrir a porta e acabam os problemas. Eles precisam que eu seja o pilar deles, com energia positiva. Faço tudo para lhes ver um sorriso. Aquele senhor era… Ainda não consigo lidar com a perda. Chorei imenso quando soube. Ele era uma alegria, participava sempre nas atividades.

Era super ativo. Há dois meses, a saúde dele piorou, tinha problemas respiratórios e diabetes. Já não conseguia participar nas atividades, não o via há semanas, e acabou por falecer com coronavírus. Temos auxiliares em quarentena, infetadas. E aguardamos exames.

Trabalhamos de máscara, luvas, e desinfetamos tudo. O dia a dia mudou bastante. Trabalho na  residência sénior O Amanhã da Criança, na Maia, há um ano e meio. Temos cerca de 60 idosos e faço atividades de estimulação cognitiva, quizzes de cultura geral, bingo, artes plásticas. Também canto e toco guitarra. Mesmo com a máscara dá para projetar a voz. Passo grande parte do tempo a fazer videochamadas com eles para os seus familiares. É uma alegria. Eles fazem festinhas e dão beijinhos no tablet. Depois tenho de desinfetar. Há mais de duas semanas que não há visitas. Muitos não entendem o motivo. Para os que têm demência é ainda mais complicado, porque temos de estar sempre a repetir que há um vírus perigoso.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
Investigação
Opinião Ver mais