Cruz Vermelha: As primeiras enfermeiras portuguesas na I Guerra

Rita Garcia 28 de setembro de 2016

Durante o conflito de 1914-18, a Cruz Vermelha construiu um hospital de campanha em França e tornou-se pioneira ao enviar um contingente de mulheres para tratar dos soldados nacionais. Elas nunca os deixaram. Mesmo quando só lhes restava vê-los morrer. Hoje o Hospital da Cruz Vermelha faz 50 anos

Antes de partir para a guerra, Maria Antónia Ferreira Pinto Basto já tinha fama de ser difícil. Enviuvara depois de um casamento conturbado com um marido demasiado mulherengo para o gosto dela. Os dois nunca tiveram filhos nem se divorciaram, mas viveram anos em cidades diferentes por incompatibilidade de feitios. Na alta sociedade lisboeta, Maria Antónia era conhecida por ser dura e inflexível. Em casa também. Os sobrinhos nunca sabiam bem aquilo de que a tia era capaz. No dia em que um dos seus favoritos lhe apresentou a futura mulher, ela tratou de a pôr à prova. Poupou-a a perguntas incómodas e a olhares de desdém. Fez-lhe apenas um pedido: "Mostre-me os seus dentes." Ninguém ousava dizer-lhe que não. Era de alguém assim que a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) precisava para chefiar a missão que estava prestes a lançar.

A Primeira Guerra Mundial, cujo centenário se comemora em 2014, já durava há dois anos e meio quando os primeiros militares do Corpo Expedicionário Português (CEP) saíram de Lisboa, em Janeiro de 1917. Iam juntar-se às tropas britânicas que combatiam em França os países da Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália). Bastaram as primeiras semanas do conflito para se perceber que os soldados portugueses tinham um problema: quando ficavam feridos, ninguém os compreendia nos hospitais de campanha. Cedo se percebeu que era preciso montar uma unidade de saúde onde se falasse português.

O duelo de Maria Antónia
Com o conhecimento e o apoio do então ministro da Guerra, general Norton de Matos, a CVP comprometeu-se a realizar uma viagem exploratória ao Norte de França com o objectivo de instalar uma unidade de saúde junto do contingente português. Thomaz de Mello Breyner foi convidado para chefiar a missão. E levou com ele uma aliada de peso: Maria Antónia Ferreira Pinto Basto, cuja determinação se revelaria fundamental até ao fim do conflito. A equipa contava ainda com o comissário Luiz Albuquerque Bettencourt, o cirurgião Azevedo Gomes e a secretária Albertina Torres.

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