"Sou muito feliz em Portugal", garante Shiraz Aref Shekho no Dia Mundial do Refugiado
Soraya Ventura, diretora-geral da fundação Portugal com ACNUR recorda que "a única diferença entre nós e os refugiados são as circunstâncias, que podem mudar a qualquer momento”.
Ao entrarmos no Mezze os cheiros transportam-nos para outro lugar. Estamos no mercado do Arroios, no centro de Lisboa, mas ao mesmo tempo estamos em muitos países do Médio Oriente. Aqui cada membro da equipa carrega a sua história e raízes que são sentidas nos pratos que apresentam.
Shiraz Aref Shekho, 56 anos, é a chefe de cozinha e chegou a Portugal há cerca de dez anos acompanhada por dois dos quatro filhos depois de viverem seis meses num campo de refugiados na Grécia. Depois de saírem de Alepo, a pé, passaram ainda um ano na Turquia antes de fazerem a travessia de barco e chegarem à capital grega, Atenas.
À SÁBADO recorda que estava no campo de refugiados quando uma organização lhe falou da possibilidade de “vir com outras 23 famílias para Portugal”. Depois de cá chegar demorou algum tempo até conseguir ter “uma vida normal”: “Quando cheguei aqui não queria trabalhar, só queria ficar em casa”, relembra Shiraz, que partilha também que nunca tinha trabalhado na Síria.
No entanto, passados “dois, três meses” começou a perceber que “ficar em casa sozinha era ainda mais difícil”. “Os meus filhos já estavam a estudar e diziam-me: ‘Mãe tens de ser tu a ir trabalhar, não te faz bem ficar em casa muito tempo’.”
Shiraz partilha que na altura pensou ser “muito difícil para a idade” encontrar trabalho, “pelo menos na Síria seria, mas em Portugal foi possível”: “A minha filha ajuda-me muito”. Durante esse processo conheceu outra rapariga síria, que veio para Lisboa com uma bolsa de estudo e que a encorajou a tornar-se cozinheira: “Ela disse-me 'tens de trabalhar num restaurante'”. E tendo em conta que em Alepo sempre foi responsável por cuidar da casa, e que gosta de cozinhar, pareceu-lhe uma ótima opção.
No entanto existia ainda outro entrave: a língua. Shiraz nasceu em Afrin, no Curdistão sírio, por isso desde pequena que fala curdo. Depois, na escola, aprendeu a falar árabe e mais tarde inglês. Quando chegou à Turquia esforçou-se ao máximo para aprender o turco e até na Grécia aprendeu algumas coisas simples para ser capaz de cumprimentar as pessoas, por isso aqui não seria diferente.
Foi na Pão a Pão, Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento, também responsável pelo restaurante, que encontrou apoio para “aprender a língua”, “tratar de documentos”. Foi aí que encontrou o Mezze Escola+, uma formação certificada em gestão e empreendedorismo para mulheres migrantes na área de restauração desenvolvida pela Pão a Pão em parceira com a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa.
Hoje tem um “dia-a-dia normal, como na Síria antes da guerra, só que com muito trabalho”, apesar de ainda não se sentir muito confiante quanto ao seu português. Agora quer ficar em Portugal e não pensa em regressar à Síria, especialmente depois de ter conseguido trazer a sua filha mais velha: “A associação ajudou-me muito para conseguir trazer a minha filha. Está cá há três anos”.
"Sou feliz aqui. Eu gosto de Portugal e as pessoas são muito simpáticas e sempre me trataram bem" refere, antes de revelar que não pensa voltar à Síria, apesar das saudades que tem dos irmãos.
O Mezze, aberto desde setembro de 2017, conta atualmente com quatro trabalhadores refugiados e vai receber este sábado um workshop de cozinha do Médio Oriente, numa parceira com a fundação parceira nacional da Agência para os Refugiados, numa iniciativa que assinala o Dia Mundial dos Refugiados.
Em Portugal vivem atualmente cerca de 68 mil refugiados e o mais recente relatório do Observatórios das Migrações, publicado na quinta-feira, refere que a maioria chega de países africanos e da América Latina. O estudo aponta ainda que o país recebe menos refugiados do que outros Estados europeus, mas defende uma estratégia de acolhimento mais integrada e descentralizada, para responder a desafios futuros.
Já a nível global existiam, no final de 2025, 117,8 milhões de pessoas deslocadas à força sobretudo provenientes do Sudão, Ucrânia, Venezuela, Sudão do Sul, Burkina Faso, Afeganistão, Mali e Myanmar. Estes números, presentes no mais recente relatório Global Trends Forced Displacement in 2025, incluem tanto as pessoas refugiadas como as deslocadas internamente
Segundo os dados do relatório publicado este mês, houve uma ligeira descida dos números face ao ano anterior, no entanto Soraya Ventura, diretora-geral da fundação, alerta que esta diminuição não significa obrigatoriamente algo positivo, uma vez que existiram “14 milhões de regressos, o maior nos últimos 60 anos". "Mas estes regressos, supostamente voluntários, nem sempre são assim tão voluntários, são feitos por pressão. Muitos sírios fugiram da Síria em busca de segurança e instalaram-se no Líbano. Agora, devido a uma nova guerra têm de voltar a correr para o país deles, que apesar de não estar em conflito ativo continua a não estar preparado”, exemplifica.
Soraya Ventura considera que este é um dos motivos pelos quais é tão importante marcar esta data: “Temos de lembrar a voz destas pessoas que não são escutadas. Foram forçados a sair das suas casas, porque corriam risco de vida por perseguição, guerra ou desastres naturais. E a única diferença entre nós e essas pessoas são as circunstâncias, que podem mudar a qualquer momento”. Assim sendo, a responsável reforça que estas situações podem afetar “qualquer estrato social”, até porque “ser refugiado não discrimina ninguém”.
O trabalho do ACNUR
“A cada 72 horas o ACNUR consegue ajudar até um milhão de pessoas graças aos protocolos de proteção de pessoas refugiadas”, revela Soraya Ventura, reforçando que a instituição consegue atuar “mesmo quando os corredores humanitários estão fechados” devido à quantidade de armazéns que possui ao nível global.
Este apoio é fundamental, especialmente se pensarmos que “68% dos refugiados se encontram em países em desenvolvimento” que lidam com as suas próprias carências, ou que “sete em cada dez refugiados estão nessa situação durante vários anos, ou até décadas”.
Assim sendo, o ACNUR é responsável por apoiar tanto no momento da emergência como no da inclusão e integração. Soraya Ventura acredita que só é possível cumprir este objetivo se “os governos, o setor privado e a sociedade civil colaborarem com estas organizações que fazem um trabalho transparente e ajudam as pessoas a conseguirem viver com mais dignidade e segurança”.
Em Portugal a fundação “trabalha sobretudo com a sensibilização para ensinar a diferença entre um imigrante e um refugiado e realizar angariação de fundos para garantir o trabalho de quem está no terreno”. A responsável reforça que “ninguém escolheu ter de fugir da sua casa, mas todos podemos escolher ser solidários através de doações espontâneas ou regulares, da consignação do IRS ou falando sobre o ACNUR”: “Nenhuma ajuda pequena é realmente pequena”, conclui.