Ricardo Fernandes escolheu a data da sua morte e cumpriu-se o seu desejo: recorde a entrevista à SÁBADO
Ficou tetraplégico num acidente de viação e, desde então, abriu uma empresa, viu os filhos crescer feliz, mas já não queria viver – faltava-lhe a liberdade. Foi para a Suíça para morrer.
Ricardo Fernandes, de 44 anos, viajou para a Suíça para colocar um fim à vida com a ajuda da Associação Dignitas, como era seu desejo. Nas redes sociais deixou uma foto de olhos fechados com a legenda "até já". Há um ano, em declarações à SÁBADO, o empresário de sucesso, que ficou tetraparaplégico há 17 anos, explicava que para si eutanásia era "liberdade medicamente assistida". Deixa a mulher Ana, de 50 anos, e dois filhos, na casa dos 20. Recorde a reportagem da jornalista Lucília Galha:
"Eu antigamente era um pássaro. E um pássaro é feito para voar e fazer a sua vida livre. Agora imagine um pássaro que não tem asas, só mexe a cabeça e as patas. Portanto, a essência do pássaro já não existe. E agora pense que o pássaro também não mexe as pernas, só mexe a cabeça. Isto não é nada. Pode fazer sentido para algumas pessoas, há pessoas que estão acamadas e faz-lhes sentido estarem cá. Para mim, não faz sentido.”
Ricardo Fernandes, 43 anos, está sempre bem-disposto e a rir. É uma pessoa ativa, com muitos jantares, convívios e festas. “Às vezes, até é difícil ter a agenda disponível”, admite, vaidoso. Tem uma vida estável, mulher, dois filhos já adultos, uma empresa com mais de uma centena de funcionários. O retrato parece contraditório com o discurso de início, mas só conta parte da história. Falta o resto. As partes más – que “são muitas” e “são constantes” – e a dor.
“Ter o meu filho pequenino e ver o meu pai a brincar com ele e não poder ser eu. Ninguém se lembra disso quando olha para o Ricardo a rir, mas depois há todas estas mágoas, e outras: não dar abraços aos meus filhos durante muitos anos, ter de olhar para o lado quando passeava na rua com eles, porque não queriam que os amigos da escola soubessem que o pai era assim – as crianças são cruéis umas com as outras. Ter o meu filho a atirar-se para debaixo de um carro, no primeiro ano de escola, no primeiro ano em que o pai está assim, porque estava habituado a ter o pai para tudo, a brincar com ele, e de repente fica sem mim.”
Sentado na cadeira de rodas elétrica, onde passa os dias – e também a partir da qual, graças a um sistema Bluetooth, consegue atender telefonemas e trabalhar ao computador –, nunca está quieto. O corpo não o deixa, tem constantemente espasmos e cãibras, o que lhe causa um mal-estar constante. Sozinho, só consegue rodar os braços; para o resto, conta com Ana – a sua companheira há 24 anos. É ela que lhe puxa as pernas para aliviar a tensão, que lhe dá de comer, que esvazia o saco para onde faz as necessidades fisiológicas.
Há 15 anos, um acidente de carro deixou-o tetraplégico e há 14 que planeia a sua morte. Ricardo Fernandes está inscrito na associação suíça Dignitas, que presta assistência na morte a pedido, e pretende ter uma morte medicamente assistida. Não é apenas uma intenção, além da chamada luz verde da organização (que significa que cumpre os requisitos para receber ajuda no suicídio), já existe uma data. “Na minha cabeça sempre houve, era para ter sido este ano, mas a Ana fez-me um pedido especial e eu adiei para o ano”, diz à SÁBADO.
Na família, ninguém sabe quando vai ser. Ricardo não quer que vivam com essa contagem decrescente. “Quero que as pessoas aproveitem comigo um dia de cada vez e com naturalidade. Eu também vou usufruir o melhor que posso, sem estar a pensar que é a última vez”, explica. Está tudo tratado, até mesmo com a funerária, e todos os pormenores definidos. Ricardo tem um plano para os últimos momentos.
“Uma coisa supersimples: banhinho tomado, vestido, beber aquele batido que tem um sabor horrível, segundo me chegou a informação, e nalguns minutos adormecer e dormir um sono profundo – a ouvir a minha playlist. Nada mais do que isto. Não quero que estejam comigo nesse momento, a olhar para mim à espera, prefiro que as pessoas não fiquem com essa memória.”
O “ano Cristiano Ronaldo”
A decisão de morrer segundo os seus termos, que assume como declaradamente egoísta – “pela primeira vez tenho de pensar em mim próprio, porque as dores e o sofrimento não são os outros que os têm, sou eu”, diz –, ganha clareza à medida que se conhece a sua história.
Aconteceu sempre tudo muito depressa na sua vida. Aos 6 anos já ajudava na loja do pai, que é eletricista, no atendimento ao público, e aos 19 saiu de casa para viver sozinho. Escolheu o curso de Turismo por um mero acaso, mas acabou por perceber que tinha tudo a ver consigo – pelo contacto com as pessoas e conhecer do mundo. Conheceu a mulher, Ana, no primeiro ano da faculdade, e ainda antes de terminar o curso já tinham comprado casa juntos e tiveram o primeiro filho (Gonçalo, hoje com 21 anos; Mariana, com 19, veio logo dois anos depois).
Em 2009, quando teve o acidente, estava no auge da vida. “Tive o meu ano Cristiano Ronaldo, conforme costumo dizer, profissionalmente fui o melhor comercial do País na banca [deixou o turismo quando constituiu família e trabalhava então num banco], tudo estava a correr bem, demasiado bem até”, conta.
Desse 9 de maio lembra-se de tudo – menos do momento que lhe deu uma volta de 180º graus à vida. Era uma sexta-feira, andava muito cansado com o trabalho e nesse dia tinha um torneio de futebol do banco – que acabou por ser cancelado. Saiu do balcão pelas 22h e foi comer duas bifanas e duas imperiais numa cervejaria ali ao lado; o diretor do balcão e o seu irmão, oito anos mais novo, foram lá ter e ficaram na conversa quase até à meia-noite. No regresso a casa terá adormecido, nunca soube exatamente o que aconteceu. Não havia marcas de travão ou de embate. Foi encontrado só no dia seguinte, às 17h14, graças ao seu batom do cieiro.
“Estive 14 horas desaparecido, mais três para me encontrarem. Acordo a ver o tabliê, o volante meio torto e as minhas pernas uma para cada lado, sem saber onde estava. E o telemóvel sempre a tocar. Não conseguia falar nem gritar porque estava entalado. O carro estava encaixado num buraco a 20 metros de profundidade, e eu sou encontrado porque um amigo meu viu o batom do cieiro na estrada e reconheceu-o como sendo meu. Por incrível que pareça, saiu do bolso esquerdo do meu fato e ficou na estrada.”
A lesão com que ficou foi na vértebra C3, situada na coluna cervical, ao nível do pescoço. Apesar de ter sensibilidade nalgumas partes dos braços, e de ser capaz de os abrir, “a única zona de contacto que ele pode sentir é a cara”, diz a fisioterapeuta Graça Mendes, que o acompanha desde o início. “A medula ficou estrangulada durante muito tempo, e isso pode ter tido influência na recuperação”, explica. No pescoço, tanto atrás como à frente, tem colocados uns ferros – “é como se fosse um género de uma baliza de rugby, com duas barras na vertical e mais duas ou três na horizontal”, compara – para lhe dar sustentação e estabilizar a fratura. Também isso lhe causa dor.
As pequenas coisas
Mas, e apesar do resto, não toma um único medicamento, não usa meias de compressão, nem precisa de estar algaliado. “Tenho um dispositivo urinário, que é um género de preservativo, que colo e descolo todos os dias quando tomo banho. Urino quando o corpo tem de urinar para um saco totalmente higiénico”, detalha, sem pudor.
Como não consegue utilizar os pulsos, nem os dedos – “o máximo que consigo é coçar-me, e mal”, diz –, precisa que o vistam, que o levem à casa de banho e que o ajudem a comer. Durante a semana, de manhã, há uma pessoa que o vai ajudar para não sobrecarregar a mulher. Apesar das limitações, Ricardo nunca se conformou. Dois anos depois do acidente abriu uma empresa de limpezas. Começou em 2011 com dois funcionários, um carro e dois prédios. Hoje, são 103 pessoas, 607 avenças mensais e mais de 300 serviços diários. “Foi e é a minha melhor fisioterapia, sem dúvida”, explica. Tem uma vida bastante ativa. Sai todos os dias de casa de manhã para ir trabalhar e vai sozinho para o escritório. Faz o percurso de cerca de 1 km na sua cadeira elétrica, na estrada rente ao passeio. Demora mais ou menos três minutos. Ainda vem a casa almoçar com a mulher, e só termina o trabalho pelas 19h.
Por mais contraditório que pareça não vê o antecipar da sua morte como um desistir da vida. “Encaro isto de uma forma completamente diferente. Tecnicamente, diz-se morte medicamente assistida, para mim é liberdade medicamente assistida”, diz. Ricardo sempre disse que não queria viver muitos anos – quer é viver muito durante esses anos –, e sente falta das pequenas coisas.
“Ir à praia e pôr o pé na areia, que era sempre a sensação que eu procurava todos os anos, o primeiro mergulho, o ato sexual sem estar preocupado com nada e sentir e tirar prazer da situação, comer, dançar, jogar futebol. Eu adorava comer caracóis e hoje recuso-me. Dar-me alguém à boca não é a mesma coisa.”
Inscreveu-se na Dignitas logo no ano a seguir ao acidente e só adiou a decisão por causa da família: os filhos ainda eram muito pequenos e queria deixá-los a todos bem financeiramente. A mulher, Ana Fernandes, 49 anos, teve o primeiro embate com a sua decisão logo nessa altura. “Sou eu que vou à caixa do correio e havia uma carta da Dignitas remetida para ele. Cheguei a casa e atirei-lhe a carta para cima, para ele perceber que eu estava chateada”, conta à SÁBADO. A primeira reação foi de repulsa. “Disse-lhe: ‘Sou completamente contra, nunca te vou apoiar e não te vou ajudar’”, recorda a professora do Ensino Básico que, apesar de ser a sua cuidadora, continua a trabalhar.
O “puto do sorriso”
Acabaria por mudar de ideias da forma mais inesperada possível. Há dois anos, Ricardo falou com os filhos e contou-lhes sobre a sua decisão e a sua vontade. Recebeu o apoio de ambos. “Eu consigo perceber, sei o que ele passa todos os dias. Podia tê-lo perdido aos 3 anos e só agradeço por ter passado este tempo todo ao lado dele”, diz a sua filha mais nova, Mariana, 19 anos. Foi a atitude dos filhos que fez Ana mudar a sua posição – continua a não aceitar a decisão do marido, mas irá à Suíça e estará com ele até ao fim.
Ter a casa paga, a empresa a correr bem, o filho já a trabalhar – faz o que gosta, é barbeiro –, e a mais nova a tirar o curso de Ciências da Comunicação, adiciona tranquilidade à sua decisão. Além da mulher, dos filhos, e dos advogados com os quais tratou de todo o processo – foram precisos inúmeros relatórios e exames médicos, até uma radiografia da sua dentição, para salvaguardar problemas de identificação –, também vão consigo à Suíça dois amigos. Os pais e o irmão não deverão acompanhá-lo.
O suicídio terá lugar numa casa alugada, mas o sítio não o preocupa muito. “Acho que as coisas boas se sentem e quando nós sentimos algo bom temos tendência a fechar os olhos”, explica. Só lamenta que no seu “país democrático” não seja permitido escolher sobre a sua própria vida e reconhece que, além da questão monetária (todo o processo custa entre 15 e 20 mil euros), tudo será mais doloroso e constrangedor para a família no estrangeiro.
Encaro isto de uma forma completamente diferente. Tecnicamente, diz-se morte medicamente assistida, para mim é liberdade medicamente assistida.
Ricardo Fernandes, 43 anos
Cargo
Depois do suicídio assistido – tomará um barbitúrico chamado pentobarbital de sódio, que deprime o sistema nervoso central e em doses elevadas leva à morte –, o seu corpo será transladado para Portugal. Ricardo quer ser cremado e que espalhem as suas cinzas no mar. “Quem quiser ir, que se lembrem de mim com um sorriso nos lábios [não é por acaso que é conhecido como o Puto do Sorriso e escreveu um livro sobre a sua história a que deu este nome], e que levem uma rosa branca”, pede. Não tem medo, mas sente aquela ansiedade de que o dia chegue, e a única coisa de que gostava era de não sofrer nos seus últimos momentos.
“Era muito feliz antes do acidente e sou muito feliz ainda hoje, porque ainda agora eu penso assim: a vida deu-me mais do que me tirou, mesmo com a cadeira. Só que o pouco que me tirou é a essência daquilo que são os gostos para mim na vida, o sentir das coisas. E sei que assim já não estou bem. Portanto, tenho o direito de escolha e vou à procura dessa escolha.”