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IA cria "cretinos digitais" nas universidades? As opiniões dividem-se

Manifesto pede fim da utilização da IA nas universidades. Defensores consideram que é tentar parar o vento com as mãos porque "IA faz parte do mundo real".

O uso de inteligência artificial generativa está a transformar os estudantes universitários em "cretinos digitais, com muito pouca curiosidade intelectual ou entusiasmo" pelo conhecimento. É esta a faceta mais visível do manifesto "", assinado por 30 professores universitários portugueses, que assume como objetivo "afirmar a necessidade de (...) banir o uso da 'inteligência' artificial generativa (IA) nos processos de ensino-aprendizagem". Mas há académicos que defendem que é essencial os alunos trabalharem com a IA porque ela não vai desaparecer do mundo.

Alunos ao computador
Alunos ao computador José Gageiro/Movephoto/Cofina Media

O manifesto, assinado por académicos de várias universidades portuguesas, com especial foco no ramo das Humanidades, incluindo o sociólogo Elísio Estanque, a historiadora Raquel Varela e o filósofo Viriato Soromenho-Marques, denuncia o "dilúvio digital" como "um dos maiores problemas enfrentados pelas instituições de ensino superior, pelos professores e pelos estudantes", vítimas de "um avanço tido como inevitável da IA sobre tudo aquilo que constitui a vida académica".

Os signatários descrevem ainda as tecnologias de IA como "fábricas de produção de lugares-comuns, banalidades, arquiteturas tecnológicas promotoras de fraude e plágio em série", cobrindo os alunos com "um espesso manto de ignorância, facilitismo, desonestidade intelectual, copianço e rapidez". Segundo o manifesto, "é tempo de coletivamente pararmos para pensar se aquilo que queremos ajudar a construir é um mundo povoado de zombies digitais alienados ou uma nova paisagem social plena de possibilidades".

O documento postula ainda que "o ponto de partida urgente não pode ser outro que não o da proibição do uso da IA", mas André Carmo, professor de Geografia da Universidade de Évora e descrito por outros subscritores como principal impulsionador do manifesto, é menos categórico em conversa com a SÁBADO. Reconhece que o tom empregue no documento é "deliberadamente provocatório, e em partes até panfletário", mas justifica-o com "a manifestação de uma posição de princípio": o "ponto fundamental é a necessidade de parar para pensar, e o objetivo do documento é suscitar o debate em torno desta matéria".

Quanto à expressão "cretinos digitais", que causou alguma indignação, diz tratar-se de uma instância de "intertextualidade", uma referência à obra  de Michel Desmurget , que correlaciona a perda de quociente intelectual e cognitivo dos jovens com a sua exposição a novas tecnologias.

O académico vinca que a ideia não é tomar "uma posição de aversão ao desenvolvimento tecnológico", e sim "criar uma brecha no pensamento único que exalta as virtudes da inteligência artificial e desvaloriza os seus potenciais efeitos nefastos". Pelo contrário, mantém que "as virtudes da IA estão ainda em larga medida por demonstrar, até porque as ferramentas utilizadas não são sujeitas a escrutínio público e democrático", sendo "criadas por grandes conglomerados tecnológicos liderados por alguns dos homens mais ricos do mundo".

Em defesa da sua posição, cita o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) , publicado já depois do manifesto, que conclui que o uso de inteligência artificial pode melhorar o desempenho académico dos alunos, mas também gerar preguiça mental e travar o desenvolvimento de competências. "Até podem ter um resultado melhor, mas isso não se traduz numa melhor aprendizagem", resume André Carmo.

O professor diz ainda que "a IA, desde que sujeita ao controlo democrático e colocada ao serviço do desenvolvimento humano, poderá contribuir positivamente", sublinhando mesmo que há " experiências de inovação pedagógica interessantes" com a ferramenta, mas que "existem efeitos contraproducentes muito significativos que devem ser tidos em conta" e que "devemos ter a liberdade, o direito e a obrigação de olhar para eles criticamente". 

Um manifesto "contra o progresso"

Apesar do tom cáustico do manifesto, a posição expressa por André Carmo não é, afinal, tão diferente da dos proponentes da inteligência artificial, que enfatizam as potencialidades da tecnologia, mas não deixam de alertar contra os seus riscos. Arlindo Oliveira, professor catedrático no Instituto Superior Técnico e autor do livro , diz à SÁBADO que partilha " as preocupações de que haja um decréscimo de capacidades cognitivas decorrentes de um uso excessivo ou generalizado destas tecnologias", em particular "nas capacidades de escrita, leitura e análise crítica" embora acrescente que tal "é menos óbvio em áreas quantitativas, como a matemática ou física".

Opina que "a disponibilidade de tecnologias cada vez mais sofisticadas que fornecem aos alunos um perito em quase todas as áreas obriga-nos a repensar a maneira como ensinamos e avaliamos", e que, de uma maneira geral, "a utilização destas tecnologias deve ser balanceada com abordagens de ensino onde estas tecnologias sejam proibidas ou limitadas", até porque, vinca, "é preciso ver que as tecnologias têm potencial grande de melhorar a aprendizagem dos alunos  o ideal é combinar o lado positivo com o evitar do impacto negativo".

De acordo com o especialista, no entanto, a solução não está a passar, nem poderá passar, pela proibição destas tecnologias – "Algumas universidades terão feito isso, mas eu não conheço nenhuma" –, até porque crê que esta não é "uma tendência que se possa parar", dado o "valor significativo" que os empregadores e o mercado de trabalho já reconhecem nos conhecimentos de IA. "Temos de pensar em metodologias de ensino que amplifiquem as capacidades dos alunos, e não conduzam a esses 'cretinos digitais'", remata.

Pedro Oliveira, diretor da NOVA SBE e professor na área da Inovação na mesma instituição, foi um dos académicos que se posicionou contra o manifesto, escrevendo, na rede social LinkedIn, que "a universidade deve ser o espaço onde se aprende a pensar com autonomia num mundo com IA, e não um espaço que finge que esse mundo não existe". À SÁBADO, defende que qualquer proibição seria não só impossível de implementar, como também indesejável para o desenvolvimento de competências nos alunos.

Sublinhando que "o resto do mundo não está a cancelar a IA", vinca que "os alunos vão estar em quadros de empresas e queremos que estejam o mais preparados possível, e isso inclui estar a par de tudo o que a inteligência artificial pode fazer, incluindo os seus erros, enviesamentos e alucinações, de forma a desenvolverem um espírito crítico em relação a estas tecnologias". 

Embora reconheça que haja problemas e riscos com a tecnologia, em particular de "integridade académica", considera que esta é a "questão fundamental mais difícil": como "contiuar a formar jovens munidos de sentido crítico para pôr em dúvida o que se lhes coloca à frente". Acredita que isso só se consegue "criticando e discutindo mais", motivo pelo qual a universidade "incentiva alunos e professores a usar mais a inteligência artificial", visto que "só assim é que vamos conseguir formar capital humano de que a sociedade pode beneficiar".

Para o professor, a comoção que se está a gerar em torno da IA é "o que sempre vimos com o surgimento de novas ondas tecnológicas", dando o exemplo da internet ou "dos professores a protestar contra as máquinas de calcular nas escolas, porque achavam que as pessoas iam deixar de conseguir fazer contas". 

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