A opção encontrada, não declarar apoio formal a nenhum dos candidatos, é, paradoxalmente, a única racional.
As
eleições presidenciais em curso deixaram de ser apenas uma disputa entre
personalidades para se tornarem um teste sério à arquitetura política do
regime. A passagem de António José Seguro e André
Ventura à segunda volta produziu um efeito imediato e concreto: a
primeira vítima política clara deste cenário é, desde já, o Orçamento
do Estado para 2027.
Este
era, reconhecidamente, o pior desfecho possível para Luís Montenegro. O
Primeiro-Ministro ficou colocado numa posição sem saída estratégica: apoiar
Seguro significaria romper definitivamente qualquer ponte com o Chega,
garantindo o chumbo sistemático das iniciativas do Governo; apoiar Ventura, por
sua vez, representaria um terramoto político de tal magnitude que permitiria ao
PS acusar a AD de ultrapassar os limites estruturais do regime democrático,
inviabilizando qualquer diálogo institucional futuro entre os dois blocos que,
goste-se ou não, funcionam como âncoras do sistema político português.
A
opção encontrada, não declarar apoio formal a nenhum dos candidatos,
é, paradoxalmente, a única racional. Ela permite liberdade de voto aos partidos
que sustentam o Governo e mantém aberta, ainda que precariamente, a
possibilidade de negociação orçamental. No caso do Chega, aliás, é menos o
partido que apoia Ventura do que Ventura que estrutura o partido, o que torna
qualquer previsibilidade ainda mais frágil.
Neste
contexto, torna-se evidente a estratégia ardilosa, e politicamente inteligente,
de várias figuras do PSD e do CDS que, a título pessoal, manifestam diariamente
intenção de voto em Seguro, sem comprometer formalmente a coligação nem o
Primeiro-Ministro. Resta saber se esta separação entre o plano individual e o
plano institucional será eficaz quando o país entrar na fase decisiva das
escolhas orçamentais.
Do
outro lado do tabuleiro, Marques Mendes surge como um caso de
estudo clássico sobre os riscos do “timing” político. Avançou cedo demais, tal
como Gouveia e Melo, que antes de ser candidato já o era. Mas, ao contrário do
almirante, Marques Mendes construiu toda a sua candidatura em torno do
argumento do voto útil: seria, alegadamente, o único capaz de levar
o eleitorado do centro-direita e da direita democrática à segunda volta,
derrotando primeiro Gouveia e Melo e depois Ventura.
Quando
as sondagens, de forma sólida e persistente, o colocaram abaixo dos 14%, essa
narrativa tornou-se matematicamente insustentável. Nesse momento, e por
coerência política, deveria ter desistido em favor de João Cotrim de
Figueiredo, consolidando na corrida a Belém um espaço ideológico que
abrange PSD, CDS e IL. Dir-se-á que o estatuto de “senador da República”,
construído por décadas de presença no Conselho de Estado, tornava essa
desistência humilhante. Mas foi o próprio Marques Mendes quem fez da necessidade
de garantir um candidato desse espaço ideológico na segunda volta o eixo
central do seu discurso. Falhando essa possibilidade, restava-lhe apenas
retirar-se.
Este
episódio, e a análise das cores do mapa
eleitoral, revela um risco estrutural maior: o PSD enquanto partido
progressivamente ruralizado, com risco de a médio prazo se tornar incapaz
de competir com a Iniciativa Liberal no eleitorado urbano, qualificado e de
classe média, que outrora lhe pertencia. Cotrim conseguiu exatamente isso:
captar votos de centro-direita e direita democrática com formação média e
superior, provenientes de diferentes tradições ideológicas.
É aqui
que surge o grande ausente, e simultaneamente o grande fantasma, da política portuguesa: Pedro Passos
Coelho. O ex-Primeiro-Ministro terá de abandonar o taticismo de esperar por
um eventual deslize judicial de Montenegro e decidir se quer continuar a ser o
principal agregador da direita democrática. A sua simples reaparição pública
tem um efeito imediato: esvazia a narrativa de Ventura e reconfigura o campo
político, explorando as ambiguidades discursivas que Passos sempre soube usar
com eficácia.
Não é
irrelevante recordar que a Iniciativa Liberal é, em larga medida, uma excreção
da ala liberal do PSD, corporizada precisamente por Passos e pelos seus mais
próximos. Mas se Passos deixar Ventura e Cotrim continuarem a cimentar um
espaço próprio e sólido na reta ideológica, será tarde para resgatar o seu
legado.
Uma
crise política séria, nomeadamente um
chumbo orçamental, pode funcionar como
pretexto para uma recomposição interna, sabendo-se que nomes como Carlos Moedas
ou Miguel Pinto Luz observam atentamente o desenrolar dos acontecimentos.
Quanto
a António José Seguro, o seu sucesso na primeira volta explica-se
por uma estratégia quase minimalista: não abriu a boca, não se afirmou, de
forma clara, ideologicamente como
socialista e não gerou polémicas. Numa campanha marcada pelo ruído, venceu quem
foi silêncio.
Importa
ainda sublinhar o impacto colateral da denúncia de alegado assédio sexual
envolvendo João Cotrim de Figueiredo. Muitos eleitores não deixaram
de votar nele por acreditarem na acusação em si, cuja credibilidade foi, aliás,
fragilizada pela ligação da denunciante ao atual Governo e por tentativas
anteriores de exposição mediática, mas
porque assumiram que os outros eleitores iriam retirar o apoio. O
efeito foi, assim, auto-cumprido. Sem entrar em teorias da conspiração, seria
ingénuo não perceber que os grandes prejudicados desse episódio foram Cotrim e,
por arrasto, o próprio candidato do Governo, Marques Mendes. É o que costuma
acontecer quando se liga a ventoinha.
O
quadro que se desenha é de elevada instabilidade. Não é possível garantir que
não haja novo ato eleitoral no início de 2027. Esse cenário pode
ser a única hipótese de sobrevivência política de José Luís Carneiro enquanto
secretário-geral do PS; pode parecer tentador para Ventura, que sempre
capitalizou crises; mas pode igualmente sair furado se uma crise no Governo e
no PSD servir de catalisador para o regresso de Passos Coelho. Hoje, paradoxalmente, o maior D.
Sebastião da política portuguesa.
Depois
da dureza da troika e de anos em que a geringonça colheu os frutos de
ajustamentos anteriores, quem diria que Passos Coelho viria a ser apelidado
de “o Desejado”? A política tem destas ironias históricas. E
Portugal pode estar, mais uma vez, à beira de as viver.
Entre a aritmética eleitoral e a instabilidade sistémica: as presidenciais e o futuro político imediato
Cumprir uma sentença não é um ato meramente administrativo, automático ou secundário. É, em sentido próprio, uma nova decisão jurídica, enquadrada pela decisão judicial, que traduz a submissão da Administração à legalidade e à autoridade dos tribunais.
A convergência de fatores externos e internos vai continuar a pressionar os decisores europeus à medida que o crescimento económico continua morno, a erosão de consensos e as pressões sobre os governos se intensificam, a competição por recursos naturais acelera, a crise climática não abranda e os ataques híbridos e a insegurança cibernética passam a ser mais frequentes.
Na verdade, brincar – especialmente sem a mediação de ecrãs – não é somente uma questão de lazer. O papel do brincar no desenvolvimento humano está amplamente demonstrado.
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