Acabaram-se os homens
Pedro Marta Santos
10 de novembro de 2020

Acabaram-se os homens

Sean despachou de facto meia dúzia de capangas dos Valdor, um dos gangues de Edimburgo. McQueen, que treinava kung-fu com Bruce Lee, era um puro sangue num Ford Mustang. Tinham defeitos, traições, misoginias. E já não se fazem homens assim.

Se Sean Connery era o epítome da classe, Steve McQueen era a essência do cool. Connery morreu no sábado passado. Completam-se este sábado 40 anos da morte de McQueen. Para os dois era sempre sexta à noite. Nasceram na loucura mansa e bem regada do proletariado. O pai de Sean trabalhava numa fábrica em Edimburgo, Escócia, a mãe fazia limpezas. O pai de Steve era piloto de acrobacias num circo, a mãe era uma doméstica alcoólica, e o pai deixou-a antes de Steve nascer. O miúdo apanhou pancada de meia-noite de dois padrastos - fugiu de casa aos 12, aos 14 e aos 16 (na última, após ser lançado escadas abaixo pelo brutamontes, respondeu-lhe: "A próxima vez que me tocares, mato-te").

Connery perdeu a virgindade aos 14 com uma voluntária do exército britânico - ela quase não despiu o uniforme. McQueen perdeu-a aos 13, entre dois assaltos e outras tantas detenções. Ambos se alistaram na marinha aos 16 (Sean na Royal Navy, Steve à socapa na marinha mercante, que abandonou para trabalhar num prostíbulo na República Dominicana). Connery foi leiteiro, camionista, salva-vidas, candidato a Mister Universo e polidor de caixões - era a mortal centelha Bond. McQueen foi larápio, lenhador, operário petrolífero, vendedor de bilhetes em feiras e corredor de motas - era o apelo ruidoso da velocidade.

Um e outro viveram depressa, sem contemplações, sem ressentimentos, olhando de frente. Connery durou até aos 90 mas retirou-se 17 anos antes, em 2003. McQueen só durou meio século, até 1980 (o cancro apanhou-o na curva). Sean Connery foi um autodidata. Steve McQueen aprendeu umas coisas com Uta Hagen e Stella Adler.

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