O abastardamento da palavra liberdade
José Pacheco Pereira Professor
25 de novembro

O abastardamento da palavra liberdade

Apoiados numa série de falsas informações e teorias da conspiração, os negacionistas consideram que se vive numa “tirania”, numa ditadura sanitária em que as liberdades estão postas em causa e em que um plano mundial de controlo com objectivos políticos está em curso com o pretexto de uma doença irrelevante, a pandemia da Covid.

Nos dias de hoje, a palavra "liberdade" é uma das mais abastardadas pelo seu uso político, em parte pela Iniciativa Liberal, e no todo pelos negacionistas da Covid e das antivacinas. No primeiro caso, "liberdade" é reduzida ao liberalismo económico absoluto, ao neoliberalismo; no segundo, a um pretenso direito a negar a realidade da pandemia e a recusar as medidas sanitárias, em particular as restrições aos ajuntamentos, o uso de máscaras e as vacinas. O segundo movimento, o dos negacionistas, é hoje o mais agressivo e violento que se manifesta na democracia portuguesa, com ligações internacionais, com uma linguagem de ameaças contra todos os que se lhes opõem, e uma permanente disposição para o confronto. Essa agressividade não é apenas verbal, restrita às redes sociais, mas manifesta-se nas ruas e deu origem a incidentes como o que tentou "cercar" o presidente da Assembleia da República, ameaçando-o e à sua família e ao restaurante onde se encontrava. Nos comícios e nas redes sociais circulam ameaças de morte e de violência contra o Presidente da República, o primeiro-ministro, o presidente do Governo Regional da Madeira, com a indiferença das autoridades, mesmo tratando-se de crimes. 

A "tirania" sanitária
Apoiados numa série de falsas informações e teorias da conspiração, os negacionistas consideram que se vive numa "tirania", numa ditadura sanitária em que as liberdades estão postas em causa e em que um plano mundial de controlo com objectivos políticos está em curso com o pretexto de uma doença irrelevante, a pandemia da Covid. As variantes desta pseudoteoria diferem no grau de conspirativite, mas em linhas gerais é isto que dizem e é com isto que mobilizam uma mistura variada de pessoas e causas, quase todas ligadas em Portugal a sectores da extrema-direita e ao Chega. Estes sectores inorgânicos vão desde as tentativas de criar um movimento de "coletes amarelos" à portuguesa, a movimentos contra o preço dos combustíveis, a versões portuguesas do White Rose, que usam o nome de um grupo de resistência antinazi para disseminar propaganda contra as vacinas. 


Tem sentido considerar a recusa de ser vacinado como uma objecção de consciência?
Admito que possa haver uma objecção de consciência para não se querer tomar as vacinas, em certos casos, embora no caso português tal argumento não tenha sido muito comum. Há grupos religiosos como as Testemunhas de Jeová que são contra pegar em armas ou aceitar transfusões de sangue. Os judeus ortodoxos têm idênticas interdições.
A lei protege algumas destas objecções e, por exemplo, há países em que o serviço militar é obrigatório e em que as Testemunhas de Jeová não são obrigadas a pegar em armas, mas sim a fazer um conjunto de tarefas, algumas com idêntico risco ao pegar em armas em caso de guerra.

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