O homem nu na calçada
Margarida Davim Jornalista
06 de outubro

O homem nu na calçada

No momento em que começamos a deixar cair as máscaras que nos protegem dos vírus, ficam à vista mais do que os nossos rostos de privilegiados que se escondem dos perigos.

Subo a rua do Carmo. Ao longe vislumbro um vulto negro sobre a calçada encardida. Aproximo-me e, pelo canto do olho, o que vejo é já não apenas uma forma engelhada que se confunde com o chão, mas um homem. Está nu e deitado de lado, como se estivesse no ventre da mãe, agarrando-se às pernas (para que não fujam?).

Tomo consciência do ritmo dos meus passos, com o embaraço de os saber lentos demais para que o possa ver e demasiado rápidos para parar e fazer qualquer coisa.

Fazer o quê? Ao meu lado, sobem e descem a rua transeuntes alheados. Penso em parar. E logo me pergunto: para fazer o quê?

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