Realidades virtuais
João Pereira Coutinho Politólogo, escritor
12 de agosto de 2017

Realidades virtuais

Se, daqui a uns tempos, as chefias chegarem à conclusão que patrulhas a pé gastam as solas em demasia, não será de excluir que as novas ordens recomendem aos agentes que façam o serviço descalços, ou pelo menos de tamancos

CONHECI HÁ UNS ANOS um professor romeno que me contou duas ou três obscenidades sobre a ditadura do camarada Ceausescu. Dizia ele que o problema do regime não estava apenas na violência explícita. Estava na "corrupção da realidade" - uma forma de falsificar o senso comum, apresentando como normais situações absolutamente anormais.

Um exemplo: faltava comida nas prateleiras das lojas? Primeiro, estranhava-se; depois, entranhava-se. E a população começava a perceber os dias e as horas em que valia a pena sair de casa para comprar alguma coisa. O problema, note-se, não estava na existência de uma economia em colapso. O problema estava na ideia ridícula, e até abusiva, de que um cidadão podia comprar o que quisesse, quando quisesse, como nas decadentes sociedades capitalistas.

Portugal passa por um processo semelhante. Não somos uma ditadura, mas todos os dias a anormalidade é apresentada como uma nova normalidade.

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